“A melhor versão do FC Porto está para chegar”

NUNO ESPÍRITO SANTO O aviso aos adversários funciona também para os adeptos. O jogo com o Benfica indica o caminho

ANDRÉ MORAIS ANTÓNIO M. SOARES
“Queremos um futebol alegre, vistoso e dominador, mas é preciso vencer. Jogar bem e perder não é de todo o que eu penso”
“Amo o que faço, o meu dia a dia, vivo para o jogo e para melhorar os jogadores. É uma honra estar no FC Porto”
“Não abdicamos de nenhuma prova e a nossa planificação é jogo a jogo. Agora o Chaves, depois o Copenhaga e a seguir a I Liga”
“O FC Porto está por cima e é a nossa vida. Isso envolve tudo, o jogo, o treino e a mensagem”

Em novembro não há campeões, sustenta o técnico, que vê a equipa a crescer muito e augura coisas boas lá para maio. Consciente de que também erra, não mudaria nada do que tem feito

Tranquilo, paciente e tão confiante como no dia em que aceitou o desafio para devolver o FC Porto aos títulos, Nuno Espírito Santo não encalhou no empate com o Benfica (ver peça ao lado) nem deixou de acreditar que em maio estará a festejar. Os dois pontos fugiram no minuto 90+2’, mas a certeza de que a equipa está a melhorar não. “O caminho é o que vimos no jogo com o Benfica”, sublinhou, em entrevista ao Porto Canal. “Não nos podemos abstrair do ciclo em que estamos e somos responsáveis por quebrá-lo. É demasiado tempo sem ganhar títulos, mas o caminho é este, é o que vimos no domingo. A equipa vai mostrando aos adeptos que pode confiar nela. Paciência é outra coisa”, sublinhou.

A evolução que vai vendo a cada jogo – e assume que o FC Porto fez alguns maus, com o Tondela à cabeça – reforça a confiança. “Sabíamos, quando iniciámos o nosso trabalho, que o ciclo tinha de ser interrompido. Mas fundamental é conhecer o processo e construir a equipa para o alcançar. A obrigatoriedade do título não pode ser única visão. Temos de encontrar o caminho para lá chegar. Ninguém pode “No FC Porto há sempre a exigência de vencer. Estamos no caminho para tal. As aspirações estão intactas” Nuno Espírito Santo Treinador do FC Porto dizer em novembro que tem uma equipa campeã. Falamos no final da época”, começou por frisar, num tom de quem convida os adeptos a acreditarem tanto como ele, sem alarmismos pela distância para o líder. Até porque, recorda, só trabalha com a versão definitiva do plantel há dois meses. “O plantel foi mudando e, aos que chegaram mais tarde, teve del hess erdadoconhe cimento da ideia, do processo. Eé também por isso que acredito que a melhor versão do FC Porto ainda está por chegar”, sentenciou.

O primeiro balanço é positivo. E isto porque, repetiu algumas vezes, antes dos resultados houve muito trabalho difícil. “Primeiro tentámos conhecer todos os jogadores que tínhamos, os que ficavam e aqueles que suscitavam dúvidas, para poder tomar decisões conscientes. Era obrigatório acabar comeste clima de desconfiança,pois tínhamos bons jogadores e tínhamos de os fazer crescer. Não podemos desperdiçar talentos com decisões erradas”, resumiu, a propósito da primeira fase. Seguiu-se o Roma. “Fomos obrigados a andar mais depressa e a construir o processo mais rapidamente. Exigiu muito esforço de todos nós. Mas a partir dali, com o mercado ainda aberto, era só fazer ajustes. A partir do momento que fechou foi tudo revisto e recomeçámos o que já tínhamos feito. Hoje temos o plantel que queremos”, concluiu. “Mas o crescimento de uma equipa é diário e nunca vai acabar”, salvaguardou.

ANÁLISE AO MERCADO DE INVERNO

Nuno não fecha a porta do mercado, mas deixa claro que algum jogador que entre terá de ter muita qualidade, até porque está satisfeito com o plantel. “[Mercado?] Estamos a trabalhar nisso. Mas uma coisa é certa, tudo que sejam ajustes e entradas, terão de trazer qualidade e competitividade interna inequívoca, porque estamos satisfeitos com o plantel”, garantiu. Jogadores como Adrián López, Brahimi e Depoitre têm tido poucos minutos, mas Nuno conta com eles. “Todos os jogadores do FC Porto fazem parte do meu conceito, mas a interpretação do momento é fundamental, saber qual o melhor momento par aos usar e potenciar”, frisou, satisfeito por ver “todos os dias jogadores empenhados, comprometidos, que respeitam as decisões. Se um não joga é porque outro está a cumprir no seu lugar”, frisou.

“O JOGO É FEITO DE EQUILÍBRIOS”

O treinador do FC Porto voltou a ser confrontado com a questão dos sistemas e de se saber qual se apropria melhor a este FC Porto. “Os sistemas são infinitos, o jogo é feito de equilíbrios. Para se ser forte temos de estar equilibrados em permanência”, sublinhou, antes de exemplificar: “Trabalhamos uma equipa que desenvolve o jogo em 60 metros. Se queremos potenciar esse jogo temos de saber que os nossos laterais vão ser alas, e se queremos ter mais gente na área, os nossos alas é que vão aparecer nessa zona. Depois, o sistema vai crescendo e é dinamizado durante a época”.

“Posso ter errado, mas repetiria todas as opções”

Criticado por mudar a equipa de jogo para jogo no início da época, Nuno defende-se com as contingências. “O adepto não tem acesso à informação que nós temos. A interpretação não é só pelo jogo, mas pela carga física e capacidade de rendimento imediato”, justificou. Além disso, o plantel mudou desde agosto. “Sabíamos que o play-off com o Roma era importante e sustentamos muita da nossa filosofia nisso. A partir de então, consideramos que tínhamos de ter outra visão de jogo”, continuou, garantindo que repetiria as opções de todos os jogos: “Repetiria, mesmo consciente de que posso ter errado. As opções, o onze, a convocatória, tudo é pensado, tudo tem o seu porquê. Mas somos humanos e podemos falhar. A consciência do erro é que me faz crescer”.

“As ambições estão intactas”

Apesar do empate com o Benfica e dos cinco pontos que separam o FC Porto da liderança, Nuno acredita no título

“A força do FC Porto [no clássico] foi superior, avassaladora para dominar o jogo e controlá-lo para chegar ao golo”
Nuno Espírito Santo
Treinador do FC Porto

Apesar do empate, o que o clássico revelou para Nuno foi um FC Porto que segue no caminho certo, uma equipa superior, que mostrou aquilo em que pode vir a tornar-se num futuro próximo

Júlio Magalhães e Nuno antes da primeira grande entrevista do treinador do FC PortoNo empate com o Benfica já foi possível vislumbrar aquilo que Nuno Espírito Santo pretende ver no FC Porto a prazo. Só faltou mesmo conjugar o resultado com a exibição e evitar o erro que deixou o treinador impotente, já nos descontos. “O jogo é feito de momentos e nos descontos a exigência tem de ser máxima, temos de estar mais concentrados, mais atentos. Foi uma desatenção que nos fez empatar esse jogo, quando nada o fazia prever”, apontou. O trauma está ultrapassado e não será por causa do empate que o FC Porto vai deixar de lutar pelo título, nisso Nuno Espírito Santo foi claro: “As nossas ambições estão intactas. O campeonato é uma caminhada longa, estamos à 10.ª jornada, o cenário que queríamos era estar a dois pontos, mas estamos no caminho certo. Temos de olhar para os nossos jogadores e dizer que este é o caminho. Não é só este jogo que é fundamental, devíamos e podíamos ter vencido, mas temos de ter esse equilíbrio durante toda a época”.

Importante para o treinador do FC Porto foi aquilo que se viu em campo. “Com todo o respeito, acho que conseguimos submeter e impor a nossa ideia durante o jogo. A força do FC Porto foi superior, avassaladora para dominar o jogo e controlá-lo para chegar ao golo. A primeira parte esteve muito próxima daquilo que queremos para o futuro”, sustentou. Nuno e a sua equipa técnica tudo fizeram para que nada falhasse. “O nosso trabalho começou há muito tempo, para um jogo que estava marcado no nosso calendário de forma impar, pelo significado que tem para os adeptos. Antes conversámos e dissemos que era fundamental que os níveis de motivação altos não se transformassem em ansiedade e os jogadores cumpriram”.

As críticas às opções feitas e a uma equipa que recuou na segunda parte também tiveram resposta. “Após a entrada de um terceiro médio por parte do rival, este conseguiu ter mais controlo no meio-campo e criar mais dificuldades à nossa circulação de bola. Respondemos, mas não fomos reativos e sim pró-ativos. As substituições foram feitas pelo que observámos e achámos melhor para a equipa. O jogo é feitodeequilíbriosenecessitávamos de ter mais posse de bola, não estávamos a conseguir. Mas nós não somos adeptos. Com todo o respeito. Nós pensamos, ponderamos. A raiz das ações é o pensamento. As decisões têm o seu fundamento”, vincou. Mas no final sobrou frustração. “Foi uma injustiça, foi algo que todos sentimos. Os dois pontos foram difíceis de deixar fugir. Mas são catalisadores. Vamos ser mais fortes, porque viver na dor faz de nós pessoas mais fortes”.

“ERROS CONTRA NÓS SÃO FACTOS”

Nuno considera que o FC Porto tem sido prejudicado pelas arbitragens. Por isso mesmo, apela aos juízes para serem justos

Nuno não gosta de falar de arbitragens, mas entende que tem de abordar o tema quando sente que o FC Porto é prejudicado. “Os erros [das arbitragens] contra nós são factos. Não podemos deixar que saiam em branco quando não fazem bem o seu trabalho e há questões que nos prejudicaram e que nos tiraram pontos. Nessas alturas não devemos deixar passarembranco.Masdizemos comtransparênciaporqueconfiamos nos árbitros e sabemos que tentam fazer o seu melhor. Mas quando há coisas tão evidentes, magoam especialmente os profissionais porque lhes retiram algo que eles procuraram”, lamentou, tentando uma postura pedagógica. “Temos de dar apoio aos árbitros para que façam o seu trabalho. Procuramos melhorar como profissionais, os árbitros também.Desejamosquesejamjustos e que não tenham interferência no resultado”, apelou.

Filhos de Nuno “adeptos fervorosos” e “mulher mais crítica”

“A minha família sofre bastante, quem nos rodeia sofre mais do que nós, mas também vive com muita alegria, temos uma convivência muito sã. Se os jogos são no Dragão, os meus filhos e a minha mulher estão presentes e no dia a seguir somos capazes de conversar sobre o jogo. Os meus filhos são adeptos fervorosos. A minha mulher é mais crítica. Às vezes quando não me agrada a conversa ou não quero responder a alguma questão mais específica sobre a gestão da equipa, educadamente levanto-me e deixo-a falar sozinha”, contou, entre risos, Nuno Espírito Santo.

Nuno Espírito Santo é portista desde que se conhece. “Estive nos juniores do FC Porto e desde bastante cedo quem entra na casa é muito difícil não beber rapidamente o espírito que o Dragão tem”, afirmou ainda, contando ainda que o seu dia-a-dia começa geralmente às 8h00 no Olival e que não acompanha “a vida política do país”.

“Eleições americanas só por curiosidade e não vejo programas de comentário de futebol, esses programas existem porque o futebol é muito mediático, mas essa opinião não me ajuda enquanto profissional, seria absurdo estar a ouvir a opinião quando é algo que não me traz nada para o meu bem-estar e melhoria enquanto treinador”, defendeu.

FONTE/ OJOGO