De tão evidente, já ninguém tem vergonha na cara

Três, repito três, penáltis por marcar a favor do Futebol Clube do Porto no mesmo jogo e já ninguém se preocupa, já ninguém tem vergonha na cara, já faz parte da normalidade. Desisto de fazer a contabilidade, ainda faltam dois terços da temporada e já nos tiraram uma dúzia de penáltis. Não há, não pode haver nenhuma equipa em Portugal a quem tenham sido roubados tantos penáltis em tão pouco tempo. Depois o que se discute é que fomos perdulários, que criamos muitas ocasiões de golo mas não marcamos. Ou que jogamos mal, como já aconteceu. E depois? Os adeptos querem ganhar justamente e isso não significa, como vimos recentemente com o Benfica, que o melhor ganhe sempre. Ganhar justamente é ganhar com todas as regras do jogo a serem aplicadas, sem dualidade de critérios. O FC Porto não tem mais vitórias porque os árbitros não deixam.

Ora, aqui chegados, eu percebo que o estilo do Nuno Espírito Santo não é o de partir a louça, de chamar os bois pelos nomes e dizer “alto e pára o baile”. É um senhor, que se quer respeitado e procura dar-se ao respeito. Mas não se iluda, Nuno Espírito Santo, não é com falinhas mansas que vão respeitar o seu trabalho. Tendo sido escandalosamente prejudicado em muitos jogos, de forma evidente na sexta-feira em Chaves, onde vai buscar a crença de que “não há nada de premeditado”? Se não há nada premeditado como é que em Alvalade arranjar a bola com a mão para marcar golo não é falta, mas no Dragão é? E como é que dois cortes deliberados com a mão em Chaves não são penálti? E um jogador do Chaves às cavalitas do André Silva, haverá premeditação do defesa, mas não do árbitro que nada assinala? E quando o árbitro, aos 75 minutos, vê o Leandro Freire agarrar e derrubar o André Silva, marca falta mas não lhe mostra o segundo amarelo, também não há premeditação?

Está no seu direito, de usar as palavras que entende, mas permita-me um conselho: não coloque nas frases, palavras que, de todo, não fazem sentido. No fim do jogo com o Chaves poderia ter dito que “tem sido evidente que há erros de arbitragem e o que o Porto tem sido prejudicado”. Estaria a dizer o mesmo, sem lá colocar a crença que desculpa quem tem prejudicado o clube onde o Nuno trabalha e, portanto, desculpa quem deliberadamente tem prejudicado o seu trabalho.

Sabe? Eu vivo em Lisboa, onde convivo com pessoas que são maioritariamente do Benfica ou do Sporting e eles já nem querem saber das nossas razões de queixa. Ficam, aliás, muito satisfeitos quando nós desculpamos as más arbitragens com os jogos menos conseguidos do FC Porto. E agradecem conversas do tipo “estas coisas acontecem, mas não são de propósito porque, no fim, os três grandes são beneficiados”. É a conversa que lhes interessa, porque eles sabem muito bem que não é verdade.

PAULO BALDAIA

FONTE/ OJOGO