Dragões sofriam como nunca e agora têm oitava melhor média da história

DEFESA: DO PAPEL FEZ-SE AÇO

Dragões sofriam como nunca e agora têm oitava melhor média da história

De Peseiro a Nuno: o que mudou na ideia, no método de treino e na forma como o sector defensivo se comporta em campo. Os nomes são quase os mesmos, mas o rendimento não é sequer comparável

Do pior registo defensivo desde que Pinto da Costa é presidente do FC Porto ao oitavo melhor registo da história do clube vai uma distância de muitos golos mas poucos meses. Com José Peseiro, o FC Porto sofria 1,18 golos por jogo em média; agora sofre apenas 0,53 e está a uma curta distância da melhor média do século (0,52), conseguida por Jesualdo Ferreira em 2007/08. Em pouco mais de quatro meses de trabalho, Nuno trancou as portas da baliza de Casillas. Mas o que mudou, afinal, para que tanto tivesse melhorado a esse nível, quando os nomes até são quase os mesmos?

Mais do que apontar defeitos às ideias do treinador antecessor ou elogiar o que Nuno tem feito, importou perceber o que mudou de forma objetiva: como se trabalhava e como se trabalha, o que se pedia e o que se pede, porque há um semnúmero de variáveis que pesam mas não se conseguem medir: a motivação, a confiança, a classificação, etc ….

As fragilidades defensivas do FC Porto na temporada passada foram a primeira evidência recolhida por Nuno Espírito Santo, até porque desde cedo que a SAD lhe contou da intenção de se reforçar com dois ou três centrais para juntar a Chidozie. Marcano e Martins Indi, os que sobravam, eram para sair, mas foi o treinador que travou a definição dos processos. Nuno não acreditou que nenhum fosse tão mau como parecia e exigiu observá-los num contexto completamente diferente e avaliá-los à luz das suas ideias. Alguns dias depois de a época começar, confidenciou à SAD que havia condições para melhorar com a matéria-prima existente, mas era obrigatório dar um sinal de mudança até aos adeptos, porque quem restou da época passada não se sentia confortável para jogar ao melhor nível.

Marcano acabou por beneficiar então do atraso na contratação de outro jogador que não Felipe (acabou por chegar Boly no final do mercado). Como na primeira fase da prétemporada era o brasileiro que mais errava, o espanhol acabou por reconquistar os adeptos e recuperar a confiança. Paralelamente, o técnico exigiu um lateral novo, porque Maxi e Layún eram bons mas curtos para tantos jogos e José Ángel não inspirava confiança.

Maior liberdade para estar e decidir em campo

Naquilo que é o processo de treino, Nuno Espírito Santo insiste muito nos duelos individuais por acreditar que, pela qualidade e inteligência, os defesas portistas têm de ganhar quase todas as disputas com os adversários. Marcano tem sobressaído a esse nível e, em Portugal, não há quem ganhe mais duelos individuais. Depois trabalha uma defesa mais próxima do meio-campo (o que não significa obrigatoriamente que esteja mais subida no campo), para que os apoios sejam mais efetivos quando alguém precisa de ajuda. Além disso, os espaços reduzidos estimulam a que os defesas joguem na antecipação, situação que também é trabalhada em vários exercícios em campo reduzido, muitas vezes até em 5×5, o que obriga a pensar rápido e a agir ainda mais depressa. José Peseiro treinava para ter uma equipa mais larga no campo e promovia treinos mais sectorizados. Nuno Espírito Santo surpreendeu os jogadores

também pela liberdade que lhes dá – por exemplo, nas bolas paradas e no posicionamento. Há regras, claro, mas o treinador do FC Porto chegou mesmo a comunicar ao grupo que, em campo, há liberdade para este mudar se isso o fizer sentir mais confortável. Casillas: ordem para limitar os cruzamentos O crescimento defensivo da equipa do FC Porto tem muito que ver também com a subida de forma de Casillas, que se sente mais desconfortável quando tem de sair da baliza pelo ar do que quando é chamado a intervir entre os postes. Fechar as zonas de cruzamento é uma das ideias-chave desta época e os números, no comparado da I Liga, já mostram alguns resultados: dez cruzamentos concedidos por jogo em 2015/16, oito na época atual.

GOLOS 0,65

Esta é a diferença de golos sofridos por jogo. Na reta final de 2015/16, o FC Porto sofria mais de meio golo por jogo (1,18) do que agora (0,53)

MUDANÇAS

No mínimo, três laterais de qualidade

Na época passada havia Maxi para a direita e Layún para a esquerda. Na hora de rodar, Peseiro foi obrigado a utilizar José Ángel ou a adaptar, o que nem sempre correu bem. Nuno exigiu três laterais de alta cilindrada por acreditar que a equipa precisava de estar a salvo de qualquer contratempo. A lesão de Maxi, que o afastou um mês, deu-lhe razão.

Condicionar em zonas diferentes

O FC Porto de José Peseiro jogava com dois extremos que condicionavam o rival quando este saía pelas alas. Nuno joga mais em 4x4x2, também porque acredita que os dois avançados podem condicionar qualquer zona de saída: o centro e a ala, se alargarem depressa e permitirem que os extremos baixem e reforcem a muralha do meio-campo.

Marcano é o central de marcação

Nem sempre é assim, porque nem sempre o FC Porto opta por marcações ao homem. Quando o treinador decide ser essa a melhor solução, então a tarefa fica para Marcano. Na época passada, com Lopetegui, Maicon era o central de marcação. Peseiro experimentou-os a todos.

Felipe aprende a dosear o esforço

O brasileiro revelou dificuldades táticas naturais próprias de quem sai do Brasil e chega a um futebol mais físico e rápido. O treinador vai-lhe ensinando a dosear o esforço, porque Felipe começou por ser do tipo vai a todas. Nuno insiste no posicionamento central, para potenciar a sua principal qualidade: o jogo aéreo.

Bolas paradas à zona e às vezes mistas

A esse nível, não há muitas diferenças entre Nuno e Peseiro. Ambos preferem marcar à zona, embora Nuno acrescente mais vezes as soluções mistas. Quando há bons cabeceadores no adversário, o treinador destaca alguns portistas para largarem a zona e andarem atrás deles. Foi o que aconteceu a Marcano, que contra o Benfica se fixou em Mitroglou.

FONTE/OJOGO