Entrevista a Jorge Costa: “Apoiem esta equipa”

“Estes é que precisam de força”

Conheço muito bem o Nuno. Não tendo sido um habitual titular, foi um dos líderes do balneário”
“Não vale a pena estar a tentar recuperar a mística, a massacrar o assunto. Nesse tempo tínhamos nove portugueses titulares. Essa mística acabou e não volta. Virá outra realidade, com outros jogadores, como está a acontecer” “As coisas não mudaram muito. O Sporting melhorou e dá mais luta, o Benfica tem ganho sempre, o FC Porto, aos poucos, está a regressar àquilo que é o desejo dos adeptos” “Houve uma fase preocupante em que parecia que o FC Porto jamais iria levantar-se, mas agora julgo que os adeptos já podem andar contentes e orgulhosos”

Antigo capitão do FC Porto, de volta a Portugal depois de dois anos e meio no Gabão, desmistifica a mística, fala sobre o momento, que é “uma boa realidade”, e aprova Nuno Espírito Santo, embora não tenha muito jeito para o desenho

Jorge Costa deixou o Gabão ao fim de dois anos e meio e voltou a Portugal. O JOGO, onde escreve semanalmente uma crónica “com muito prazer”, partiu para uma conversa sobre África, que só parou no Porto. E até foi por aí que tudo começou.

África faz parte desta conversa, como se pode ler na terceira página desta entrevista, mas o cruzamento com o clube do coração de Jorge Costa foi inevitável. O antigo capitão continua a sofrer como adepto, é apontado por muitos como um dos grandes exemplos da mística que tantos dizem perdida, mas essa questão da mística pode ter os dias contados ou pelo menos tem de ser vista noutra perspetiva. Ter sido selecionador do Gabão deulhe mais experiência e enriqueceu-o profissionalmente. O telefone já tocou várias vezes com convites ótimos, mas não há pressa… Não lhe vou perguntar se gostaria de um dia treinar o FC Porto, porque essa pergunta já lhe fizeram muitas vezes…

— Muitas mesmo… Diga-me como é que olhou para o FC Porto e para o que se passou no futebol português em geral nestes dois anos e meio fora de Portugal, quase sem pôr cá os pés… —As coisas não mudaram muito. Fazendo uma retrospetiva, o Sporting melhorou e dá mais luta,o Benfica tem ganho sempre, o FC Porto, aos poucos, está a regressar àquilo que é o desejo dos adeptos. Houve uma fase preocupante, há dois anos, em que dava a ideia de que o FC Porto jamais iria levantar-se, mas neste momento, e apesar de o campeonato estar como está, julgo que os adeptos têm de andar mais contentes, mais orgulhosos. O último jogo com o Benfica foi ademonstração dessa força.Fizemos… fizeram uma exibição extraordinária em que só por infelicidade não conseguiram os três pontos. E espero, sinceramente, que o golo ao minuto 92 não deixe marcas, porque é uma equipa muito jovem. Não sei até que ponto terá estrutura mental para aguentar com estes baldes de água fria, mas tenho a certeza de que o FC Porto de hoje não é o de há dois anos. Está muito melhor. Conhece bem o Nuno Espírito Santo, privou com ele, acha que a experiência de clube que ele tem pode ser importante para a recuperação da tal mística de que tanto se fala, e da qual você é tantas vezes solicitado a falar e apresentado até como um exemplo? —Conheço muito bem o Nuno. Não tendo sido um jogador habitualmente titular, uma das figuras, foi um dos líderes do balneário. Deu uma demonstração dessa liderança quando um dia foi a uma conferência de Imprensa dar a cara, ser a voz do grupo, numa altura em que a equipa estava a ser atacada violentamente. Só alguém com peso no balneário poderia fazer isso. Com certeza que aprendeu muito no clube e, como treinador, teve a possibilidade de trabalhar com o professor Jesualdo Ferreira, que é um dos treinadores mais capazes com quem já tive o prazer de trabalhar como jogador, na Seleção. Essa felicidade do Nuno, de ter feito parte da equipa técnica dele, tendo um estilo diferente, necessariamente, é uma vantagem. Embora tendo pouco jeito para o desenho… Sabe o que é ser um jogador à Porto e o que representa ter responsabilidades no clube. Essa mística perdeu-se mesmo? —Essa mística… Sinceramente, não vale a pena andar a tentar recuperar a mística, massacraroassunto.OFCPortopode ter sucesso, e vai ter com certeza,nãoesquecendoessamística, com estes jogadores. Não se pode estar a comparar os finais dos anos 80 e início dos anos 90 com a atualidade. Nesse tempo, tínhamos nove por-

tugueses titulares formados no clube. Era diferente, claro que sim, mas é algo tão óbvio como impensável que isso volte a acontecer. Recuperar a mística, o que é isso? Pode dizer-se que houve um tempo, “esse” tempo? —Sim, essa mística acabou, não volta. Virá outra realidade, com outros jogadores, como está a acontecer. Não estou a dizer que no meu tempo é que era bom. Detesto isso. A indústria do futebol mudou imenso e o clube pode ter sucesso sem estar agarrado a um passado de glória, como esse que viveu. Quanto mais se falar na mística do FC Porto e comparar a atualidade com esses anos em que joguei, mais pressão se vai colocar, mais dúvidas vão colocar-se entre os adeptos.

E qual é o caminho? —O caminho está a ser percorrido naturalmente. Claro que tem de se explicar aos jogadores que chegam o que é o clube, o orgulho e a honra de representá-lo, a responsabilidade, o espírito, tudo isso. Ainda há dias, escrevi numa crónica, neste jornal, que um clube tem a sua cultura e é preciso percebê-la. Mas o pior que se pode fazer é esse apelo ao passado. Muitas vezes me abordam na rua e me dizem: “tu é que fazes falta lá”… Aprecio que se recordem de mim, orgulho-me disso, mas tenho 45 anos, já não jogo, só se for em dois metros quadrados… Esqueçam o Vítor Baía, o Jorge Costa, o Fernando Couto, o JoãoPinto,oDomingos…Tiveram o seu tempo, o seu passado, muitos êxitos, mas agora é o André Silva, o André André, o Layún, o Casillas, esses é que são os artistas. Quanto mais se fala do passado, menos força se dá a estes, e os que representam agora o clube é que precisam de força.

Acredita nesta equipa? —Acredito e por isso é que acho que se deve apoiá-la. Esta é uma boa realidade.

383

Como futebolista sénior, não contabilizando os anos nas camadas jovens, Jorge Costa participou em 383 jogos com a camisola do FC Porto, marcando 25 golos

Charlton, a outra paixão

Terminada a aventura africana, o telefone de Jorge Costa já tocou com convites para trabalhar. De Portugal e do estrangeiro. Um dia destes voltará ao ativo. Inglaterra seria para ele uma grande ideia

Meio ano em Inglaterra como futebolista, ao serviço do Charlton, na sua primeira experiência como emigrante, deu-lhe uma incrível popularidade ao ponto de os adeptos, por altura do centenário, o terem colocado como o quinto estrangeiro mais valioso na história do clube. Jorge Costa orgulha-se disso e voltar um dia ao clube, agora na pele de treinador, abre um sorriso ao “Tank”,co mo foi batizadop elos adeptos ingleses …“Treinar em Inglaterraéo sonho de quem gosta de futebol, não porque lá o futebol seja melhor ou pior do que nos outros países, mas a envolvência é arrepiante. Se eu fosse colocado perante duas propostas, uma de um clube inglês e outra de um francês, por exemplo, independentemente da questão financeira, não hesitaria: optava por Inglaterra. O Charlton, apesar de não ser hoje o clube que apanhei enquanto futebolista – os dirigentes são outros, mas os adeptos são os mesmos –, claro que seria um prazer. Passei momentos fantásticos em apenas seis meses, criou-se uma empatia surpreendente para mim, ao ponto de o Charlton estar para sempre no meu coração, num lugar muito especial, bem cá dentro. Não se pode comparar ao que o FC Porto representa para mim, foi a minha vida, mas está no meu coração. Quem sabe se não voltarei lá um dia.”

Percebe-se que não há pressa de voltar ao trabalho, mas as propostas vão surgindo. O telefone toca…

“O telefone toca todos os dias… [risos]. Sim, já tocou. Mesmo quando estava no Gabão, principalmente na fase de renovação do contrato, tive a possibilidade de ir trabalhar para outros sítios, com propostas bem interessantes, que não aceitei, mesmo estando numa fase de renovação do contrato. Não aceitei por uma questão de princípio, de educação e de lealdade. Sei que, quando menos esperar, vou estar a trabalhar de novo.”

“Até” de Portugal já recebeu convites, mas será que está na hora de voltar a trabalhar no país? Jorge Costa, enquanto futebolista, teve sempre dificuldades de encarar a possibilidade de emigrar. As coisas mudaram. “Vou trabalhar em Portugal ou em qualquer parte do mundo, na China, na Austrália… Vou trabalhar num sítio onde me desejem. Fui empurrado para a minha primeira experiência como emigrante, quando saí do FC Porto para o Charlton. Custou-me muito. Hoje, vejo a condição de emigrante com toda a naturalidade. Não é dramático.”

A loucura de José Mourinho

Em Inglaterra, país onde Jorge Costa também gostaria de trabalhar como treinador, está José Mourinho, o grande responsável pelo regresso do Bicho ao FC Porto e para vencer a Liga Europa e a Champions… O treinador do Manchester não vive um momento fácil, há quem diga que a estrelinha do Special One se sumiu, mas Jorge Costa tem outra leitura do momento:

“Um treinador do nível do Mourinho não vive da estrelinha da sorte. No início de uma carreira, a estrelinha até pode ser uma grande ajuda, mas para se manter no topo, mesmo no topo, é preciso saber muito, ter uma qualidade extraordinária, como ele continua a ter. Acontece que foi para um clube diferente. Ferguson também passou cinco ou seis anos sem ganhar nada. O Manchester está a reformular-se, tem jogadores jovens, apesar de experientes. O Mourinho vai tornar o Manchester uma equipa outra vez fortíssima dentro de dois ou três anos. Julgo que foi para isso que o contrataram. O que vemos hoje de diferente nele? O José Mourinho, conheço-o muito bem, é louco por ganhar e, quando isso não acontece, estranhamos. Mas ele continua com todas as qualidades, ninguém duvide disso.”

“PREGARAM-ME UMA PARTIDA E DEIXEI-ME IR”

Jorge Costa liderou a seleção africana durante dois anos e meio. Apesar de perceber que o relacionamento com a federação gabonesa estava a esgotar-se, contava ir à CAN’2017

“Os três grandes objetivos foram alcançados e, modéstia à parte, com brilhantismo”

Estava nos planos de Jorge Costa fazer a CAN’2017 como selecionador do Gabão. Não aconteceu assim. O fim da ligação estava mais ou menos anunciado, seis meses antes…

Atendendo a que os resultados desportivos foram alcançadosatéaomomentodasaída, pode encarar-se com alguma surpresa que a federação gabonesa e Jorge Costa tenham acertado a rescisão, numa altura em que o selecionador já tinha tudo planeado, desde estágios a jogos de preparação para o grande evento africano. Mas, pelo menos para o português, não foi mesmo uma surpresa… “O processo de renovação foi complicado. Houve um desgaste das relações de dois anos e meio. São mentalidades diferentes. Quando parti para o Gabão, ia com a ambição de mudar alguma coisa, mas com o tempo percebi que há coisas que jamais irão mudar em África. Ambas as partes sabiam que estava por um fio e que a qualquer momento poderia rebentar.”

Jorge Costa apresenta uma primeira razão, como que historiando o processo. “A minha relação com a Comunicação Social não foi boa. Senti que não fui muito bem recebido. Provavelmente estariam à espera de outro tipo de treinador. Houve um choque inicial, provavelmente também por culpa minha. Houve momentos de grande tensão entre mim e a Comunicação Social do Gabão. Depois, choquei com problemas de organização. Poderia darmuitosexemplos…Emdois anosemeio,nãoconseguifazer um jogo particular em casa, algo que me deixou desgastado e que até hoje não entendo. Não conseguir preparar a equipa no país, andei sempre com a casa às costas. E não falta dinheiro no Gabão, e muito do dinheiro é canalizado para o futebol. Não consegui fazer a preparação ideal e percebi que não ia conseguir fazer até à CAN.”

O último resultado, que foi o primeiro de apuramento para o Mundial na Rússia, um empate caseiro com Marrocos, acabou por ser a pedra de toque. Mas não foi só. “Para mim, empatar com Marrocos não foi um drama, mas para as pessoas da Federação, para a Comunicação Social, foi um péssimo resultado, o que também me fez pensar que estávamos pelo menos em realidades diferentes. Mas a gota de água acabou por ser a minha ausência no sorteio da fase final da CAN, que se realizou em Liberville. Quinze dias antes, fui informado pelo presidente da Federação que não era querida a minha presença, seria ele e o diretor técnico nacional a marcarem presença. Não fui, vim para a Europa ver jogos, mas lá foi um escândalo. Toda a Comunicação Social pegou no assunto sem conhecer o verdadeiro motivo. Forçaram a história, acho que me pregaram uma partida e eu deixei-me ir. Ficou insuportável a minha continuidade.”

Dos resultados desportivos, Jorge Costa e a sua equipa técnica só podem levar nota positiva: apuramento para a CAN’2015 sem qualquer derrota, apuramento para a CAN’2017 em primeiro lugar – o apuramento estaria garantido por ser o país organizador, mas o regulamento impõe a realização da qualificação, como se não existisse essa premissa – e ainda um lugar na fase de grupos de apuramento para o campeonato do mundo, algo inédito para o Gabão. “Os três grandes objetivos foram realmente alcançados e, modéstia à parte, com brilhantismo. O único registo negativo foi termos descido no ranking, mas depois de termos subido imenso quando chegámos.”

E a descida teve a ver “com os jogos particulares que fizemos, sempre fora do país e com grandes dificuldades para contarmos com os jogadores quepretendíamos.Chegámos a fazer um jogo na Turquia, com a Bielorrússia, apenas com 14 jogadores”.

Essa foi sempre uma grande dificuldade, contar com todos os jogadores: “No Gabão, há um lote de jogadores de muita qualidade, mas é um leque estreito. Apenas um jogador dos que chamei habitualmente joga no país; todos os outros atuam fora, e foi sempre muito complicado ter todos os jogadores para uma jornada dupla. A distância, as viagens, as exigências dos clubes a que pertencem,tudoissoconjugado torna-se um grande problema, que nos obriga a puxar pela imaginação para o ultrapassarmos. Não é uma situação fácil.”

Empresário Deco sempre presente

Foi por interferência de Deco que Jorge Costa assumiu o cargo de selecionador do Gabão. O antigo médio portista, hoje empresário, é também o conselheiro para o desporto do presidente gabonês. Do antigo companheiro, Jorge Costa só tem a dizer bem: “Foi uma pessoa sempre presente e se não fez mais foi porque não pôde. Teve um papel exemplar, só tenho a agradecer-lhe, mas não me surpreendeu, porque ele é mesmo assim, uma grande pessoa.”

FELICIDADE POR FERNANDO SANTOS

Jorge Costa viveu intensamente o Europeu de Futebol, foi aliás um dos cronistas de O JOGO e, mesmo nessa condição, teve dificuldades em conter a alegria da vitória final. Como curiosidade, a escolha inicial do Gabão foi mesmo Fernando Santos, que declinou o convite, surgindo depois o nome do Bicho, que acabou por aceitar. Mas é do Europeu que aqui se fala. “Com toda a honestidade, foi uma grande surpresa a vitória de Portugal. Esperança tinha, mas todos sabíamos que não era fácil, até porque Portugal não começou bem, mas, em boa verdade, qual foi, entre as favoritas, a que esteve bem na primeira fase, tirando a Alemanha? Portugal foi caminhando. Sem tirar o mérito aos jogadores, aos dirigentes, a todo o staff, o Fernando Santos foi o grande responsável, a primeira pessoa a acreditar, mesmo nos momentos mais difíceis, e a arrastar todo o grupo com ele para essa fé. Tiro os chapéus todos ao Fernando Santos. Não falo com ele com frequência, mas tenho um sentimento muito especial por ele, com quem vivi tempos fantásticos e com quem aprendi imenso. Fiquei contente como português, felicíssimo pela Seleção, e por ele, que tem grande mérito naquele feito extraordinário.”

FONTE/ OJOGO