Entrevista Deco: “A nossa equipa era completa”

“FC Porto não pode ser encarado como um clube de passagem. Quem pensar assim, está no sítio errado”
“Se o FC Porto pensar numa equipa para um ano, está a cometer um erro. O clube precisa de se reinventar e criar uma base”
“Para o Nuno o poder meter, o Brahimi tem de jogar como faz agora. Os jogadores também têm responsabilidades”

Anderson Luiz de Sousa, 39 anos, Deco para o mundo. Um nome da história recente que é difícil esquecer. Ainda assim, entrevistá-lo é ter um encontro com a magia e a saudade

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Número de jogos desde que iniciou a carreira profissional no Corinthians, com 18 anos. Marcou 101 golos, com a vantagem de muitos deles terem sido brilhantes execuções

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O FC Porto foi o clube que o projetou para o mundo. Com a camisola dos dragões marcou 48 golos, em 229 jogos. A Taça UEFA e a Champions foram os troféus mais importantes que conquistou pelo clube

Deco é hoje um agente desportivo e está prestes a montar quartel-general com a família no Porto. Numa longa conversa com O JOGO, Deco também se reencontrou com o passado. Ele, que não gosta de dar entrevistas e nem tem ideia de ter falado tanto desde que abandonou a carreira, há três anos, aceitou o convite de O JOGO e conversou sobre tudo, do passado à nova vida. Eis o resultado.

A última vez que pisou um palco onde viveu tantas glórias, como o Estádio do Dragão, foi na sua festa de des-

pedida. Foi emocionante…

—Muito, foi uma boa ideia, que surgiu por acaso. Quando decidi terminar a carreira, vim para o Porto, estive dois ou três dias sozinho, não quis estar com ninguém… Nem ao Fluminense disse a minha decisão antes de partir, porque sabia que as pessoas iam insistir muito comigo para que não o fizesse, aliás, queriam até prolongar o contrato e ainda tinha mais ano e meio. No Porto, encontrei-me com o Sérgio Alves, que faz muito tempo é o meu melhor amigo, e fomos jantar a casa do Jorge Mendes. Estava lá o presidente Pinto da Costa, que ficou a saber da decisão. Passado um ano, comecei a pensar em fazer uma despedida.Perguntei-lhesepodia fazer a despedida no Dragão e ele disse-me que sim.

O que mais o surpreendeu nessa festa?

—Não esperava tanta gente. Tenho a noção de que sou uma pessoa muito querida no Porto e no clube em especial. Cheguei muito novo, apanhei uma geração que tinha uma história muito forte, depois tive dois anos maus no sentido em que é muito difícil estar num clube que perdeu durante dois anos o campeonato, depois “Hoje, o Mourinho sabe mais, mas na altura tinha mais para dar”

“Fiquei aborrecido por não sair logo para o Barcelona. durante dois meses joguei mal”

de ganhar cinco vezes consecutivas. Veio a mudança com o Mourinho. Não foram só glórias que vivi no FC Porto. Fiquei muito emocionado e grato, também por ter nessa festa muitos antigos companheiros e tenho pena de não ter tido mais jogadores que jogaram comigo na Seleção.

As recordações do “seu” FC Porto são boas?

—As recordações estão todas na minha cabeça. Se parar para pensar, a minha vida resume-se a poucos clubes. O Alverca, o Salgueiros, três ou quatro meses, o FC Porto, o Barcelona, o Chelsea e o Fluminense. O FC Porto foi o que mais me marcou.

Foi difícil sair do FC Porto depois de tanta magia?

—Não, porque encarava isso já há algum tempo. Mais difícil foi ver uma equipa como aquela desfazer-se em tão pouco tempo. Aí deu nostalgia. Foi diferente, por exemplo, a saída do Barcelona, porque ali acaba uma equipa de grandes jogadores e está outra já em movimento; do FC Porto custou pela idade que tínhamos e que impossibilitou o reencontro com outra grande geração, que veio a seguir. Seria mais fácil a reconstrução se a essa equipa conseguíssemos juntar o Falcao, o Lucho, o James… Aí o FC Porto conseguiria ter uma hegemonia durante mais algum tempo. Mas havia também uma liderança forte. Havia jogadores que se completavam. Não havia jogadores parecidos, não havia dois da mesma característica do Maniche, do Alenitchev, do Derlei, do Jorge Costa…

Não saiu para o Barcelona quando quis. Pinto da Costa pediu-lhe que ficasse mais um ano e ficou. Isso incomodou-o?

—Fiquei aborrecido, confesso, não por ter continuado no FC Porto, mas porque o único clube onde sonhava jogar, desde menino, era o Barcelona. Quando surgiu a possibilidade, em 2003, mexeu comigo. Achava que não íamos ganhar mais do que a Taça UEFA, porque a Liga dos Campeões era muito difícil, mas o argumento do presidente e do próprio Mourinho era de que iríamos vencer a Champions. Só que eu entendia que tinha chegado o momento de sair e, nos dois primeiros meses, não joguei nada, estava mal. Um dia, em estágio antes de um jogo com o Lyon, cheguei à conclusão de que o único prejudicado seria eu. Concluí que tinha de me concentrar, de me dedicar e de voltar a jogar como tinha jogado. E, a partir daí, voltei ao normal. Essa equipa terá sido das melhores de sempre? —Sim. A geração que ganhou a Taça dos Campeões em 1987 também era muito forte. A geração do Hulk, do James, do Falcao, do Lucho, a nível individual tinha mais jogadores de qualidade. Nós tínhamos muitos bons jogadores, mas não essa quantidade de jogadores de grande nível. Como equipa, a nossa era mais completa, mais equilibrada e havia o Mourinho. Imagina o Mourinho com todo o seu potencial e nós a desfrutar daquilo! Hoje, o Mourinho sabe mais, mas se calhar tinha muito mais para dar naquela altura. Quem teve a sorte de trabalhar com ele nesses primeiros anos também ganhou muito. Quando começam a acreditar em vencer a Champions? —O Mourinho já mudou um pouco a mentalidade na Liga Europa, sabíamos que com o tempo íamos chegar lá.

“Objetivo do FC Porto deve ser recuperar a hegemonia”

Uma equipa jovem e que precisa de crescer no meio da exigência de conquistar o título. É esta a ideia que o mágico tem sobre o atual FC Porto, mas entende que a prioridade deve ser criar uma boa base de futuro

Deco acredita no trabalho que está a ser feito no Dragão, na criação de uma base, mas necessita de manter alguns jogadores

Deco não perde, nunca perdeu de vista o FC Porto. Tem uma voz crítica, mas fala com a vantagem de perceber o que diz, ou seja, de futebol, e de conhecer muito bem o clube. Olha assim para o momento: “Não vejo o FC Porto tão mal quanto diziam, nem tão bem quanto dizem agora. As pessoas têm a tendência para passarem do oito ao 80 muito rápido. O FC Porto está a passar uma fase sempre ingrata – é aquela em que a ansiedade se agudiza, quando não se ganha e há a necessidade de o fazer. Isso viu-se bem no jogo com o Braga, em que festejou a vitória como se estivesse a festejar um título, e isso é sinal do momento.” O mágico entende tudo isso e dá a sua visão: “Nem sempre as coisas saem como se trabalham. O FC Porto, até ao momento, teve altos e baixos. Começou bem, depois baixou, não se encontrou, agora está de novo em alta. É muito fácil criticar um treinador, mas os jogadores também devem ter responsabilidade quandoascoisasnãovãobem.” E fala de um caso muito específico. “As pessoas questionavam por que é que não jogava o Brahimi, mas, para o treinador o poder colocar, ele tem de jogar como está a jogar agora. Falo do Brahimi porque gosto imenso do futebol dele.”

Diz o antigo médio que “não é fácil vencer com muitos jogadores novos”. “O FC Porto está à procura de uma equipa, mas não só para este ano. Os jogadores têm passado pouco tempo no clube. Basta ver que o Herrera é o jogador que tem mais tempo nesta equipa e chegou há quatro anos. Há jogadores que são miúdos e que estão a chegar, mas o FC Porto não pode ser visto como uma passagem. Jogador que pensar assim está no sítio errado”, analisa. O tema merece uma análise comparativa: “O FC Porto conseguiu sempre manter uma base; quando estavam para sair alguns jogadores, já havia outros para entrar. O FC Porto tem base para fazer uma grande equipa; vamos ver quanto tempo vão aguentar alguns jogadores, como o Maxi, o Casillas, o próprio Felipe, que foi uma grande contratação, mas tem seis meses de clube; o Marcano, que parece que se encaixou numa boa dupla, ou o Danilo, que chegou há época e meia, e tem um trabalho fundamental no meiocampo”, argumenta.

Por tudo o que pensa, Deco entende que é preciso cuidado quando se pede o título a esta equipa. “O FC Porto está em busca dessa base e pouco a pouco vai conseguir. Se o FC Porto pensar numa equipa para este ano, está a cometer um erro. É óbvio que é difícil para um clube que está sem ganhar há três anos, mas tem de pensar nos próximos. O grande objetivo do FC Porto é equilibrar com o Benfica a hegemonia que tinha. Até pode ganhar o campeonato, mas o maior desafio neste momento… é o futuro”, defende.

Mendes apostou e ganhou

Chegou para o Benfica em 1997, mas foi emprestado ao Alverca. O empresário tratou do resto

“Não encarei como um drama não ter ficado no Benfica. Na realidade, nem pensava sair do Brasil quando me trouxeram para cá. Também fui enganado”

Coma camisola do Fluminense, D eco terminou uma carreira que começou ainda no Brasil, com 18 anos, altura em que se tornou profissional do Corinthians. Foram então 18 anos de profissional, e isso deixa saudades. “Do jogo em si, tenho saudades. Há uma nostalgia. Deixar de jogar um dia é inevitável. Deixei porque estava a ter muitos problemas musculares e estava a sofrer. A determinada altura, também por questões pessoais, deixei o Chelsea e fui para o Brasil, para o Fluminense. Deixar de jogar foi uma decisão custosa. E isso acontece com qualquer um.” Deco recorda-se bem do dia em que chegou a Portugal: o destino era o Benfica, mas na Luz não lhe viram assim tamanhas condições e foi cedido ao Alverca. “Jogava no Corinthians e fui comprado por um grupo de empresários; não me passava pela cabeça sair. Depois, surgiu a possibilidade de ir para o Benfica por empréstimo, mas nem valorizei muito isso. Era jovem, tinha 18 anos. Quando cheguei fui para o Alverca… Não encarei como um drama ter sido emprestado. O Corinthians tinha interesse em que eu continuasse, mas não houve acordo com o grupo de empresários. A ideia não era sair do Brasil, mas aconteceu e, depois de eu ter chegado, foi tudo muito natural. Vim com o Caju, que é meu amigo até hoje. Isso também ajudou”, assume. Não ficar na Luz não o incomodou: “Quase não tinha ligação com o Benfica. Ia lá treinar de vez em quando. Tinha uma ligação contratual, nada mais. O Salgueiros, juntamente com o Jorge Mendes, trataram de comprar o meu passe. O Jorge foi o responsável por eu ter ficado em Portugal. Em dezembro do ano em que cheguei, quis voltar para o Brasil. Conheci o Jorge por essa altura e foi ele quem tomou a iniciativa de ir ao Brasil e comprar o meu passe, juntamente com o Salgueiros. O grande mérito do Jorge foi ter tido visão e apostar. Não é fácil apostar num jovem desconhecido, mas ele fez isso, e ainda bem. Haja quem aposte assim”, sublinha.

 

Fonte: Ojogo

One Comment

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