FC Porto avança com queixa a Tiago Antunes

CARTAS, QUEIXAS E SILÊNCIO

TIAGO ANTUNES Dragões enviam exposição para os presidentes da FPF, do CA e do CD. José Fontelas Gomes e José Manuel Meirim mantêm-se em silêncio

Acusação: dragões acusam Tiago Antunes de xenofobia Defesa: quarto árbitro do jogo Braga-FC Porto nega que a página do Facebook seja dele
“Os árbitros estão instruídos para não responder, escrever, nem reagir nas redes sociais” Luciano Gonçalves Presidente da APAF

Da página 1 Dragões anexam provas e escrevem aos órgãos que tutelam a arbitragem e disciplina. A O JOGO, o quarto árbitro do empate em Braga negou, por gestos, ser o dono da página de Facebook de que se fala

O FC Porto mantém-se revoltado com Tiago Antunes, o quarto árbitro do jogo em Braga, o mesmo que deu indicação para a expulsão de Brahimi e, depois, alegadamente teceu comentários de natureza xenófoba no Facebook, em resposta à indignação de adeptos portistas. Na terça-feira, no programa Universo Porto da Bancada, do Porto Canal, os dragões sublinharam terem a certeza de que a página de perfil em causa é mesmo de Tiago Antunes, ainda que este a tenha negado em primeira instância e, ontem, o tenha reforçado à reportagem de O JOGO no Fafe-Benfica B (0-1), jogo que apitou. Tiago Antunes recusou fazer qualquer comentário, mas foi claro quanto lhe perguntámos se o perfil de Facebook, entretanto eliminado, era realmente seu, acenando negativamente a cabeça. Depois explicou que já havia esclarecido a situação em sede própria e que, portanto, não fazia sentido fazê-lo publicamente.

Os dragões juntaram documentos que, acreditam, provam o contrário. Além disso, voltam a lamentar a expulsão de Brahimi, pois não têm qualquer vídeo que mostre aquilo de que Tiago Antunes se terá queixado: o encosto de faces. As cartas, em formato papel e e-mail, estão prontas e até já terão seguido, em triplicado, para o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, o presidente do Conselho de Arbitragem e ao Conselho de Disciplina, a quem foi feita uma exposição a solicitar procedimento disciplinar sobre o árbitro de Coimbra.

O JOGO contactou por via telefónica José Fontelas Gomes, líder do Conselho de Arbitragem, e José Manuel Meirim, presidente do Conselho de Disciplina. Nenhum atendeu. A Federação Portuguesa de Futebol também não se pronunciou de qualquer outra forma.

Já Luciano Gonçalves, presidente da APAF, foi mais solícito no caso da acusação de xenofobia, embora não se tenha esticado muito nem tecido juízos de valor a propósito das queixas portistas. O que o dirigente não quer é que, seja para o que for, os árbitros utilizem as redes sociais para se exprimirem. Sobre esta situação em particular, quer primeiro saber se o perfil de Facebook é realmente de Tiago Antunes. Mas avisa que a interação nas redes sociais “é um assunto muito discutido com os árbitros.” Apesar de nada estar regulamentado, “os árbitros sabem perfeitamente que não devem nem o podem fazer”, confirmou, indo até mais longe: “Os árbitros estão instruídos para não responder e muito menos escrever. Estão instruídos para não reagir àquele tipo de situação.” Tiago Antunes vai ser ouvido nesse âmbito. “Sim, claro. Ainda não foi possível, mas vou tentar perceber se realmente se passou alguma coisa e se realmente foi ele a responder”, confirmou-nos o líder da APAF.

Discriminação vale suspensão

O Regulamento Disciplinar, no capítulo VI, fala sobre “Comportamento discriminatório” no seu artigo 158.º. E diz o seguinte: “O elemento da equipa de arbitragem, observador ou delegado ao jogo que através de atos ou palavras ofenda a dignidade de agente desportivo, em função da ascendência, sexo, raça, nacionalidade, etnia, língua, origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual é punido com suspensão a fixar entre 6 meses a 2 anos.”

Opinião

“Se for verdade, terá carreira curta”

Jorge Coroado Ex-árbitro e comentador do Tribunal O JOGO

“Não há regulamento que proíba o uso de redes sociais. Mas há aconselhamento nesse sentido. Mas qualquer árbitro deveria ter maturidade suficiente para não entrar em determinados campos. A APAF não tem autoridade a esse nível, mas o Conselho de Arbitragem deve chamar o árbitro, se se confirmar ter sido ele o autor, e fazer-lhe sentir a inconveniência. Com comportamentos destes, como diria outra pessoa, terá carreira curta. O CA tem condições para agir e pode até participar do árbitro ao Conselho de Disciplina, que o pode suspender.”

“É importante que o CA nos informe”

José Leirós Ex-árbitro e comentador do Tribunal O JOGO

“Não acredito que a página seja de Tiago Antunes, pois quem tem responsabilidades não pode nem deve usar redes sociais. E também tenho a noção de que há milhares de perfis falsos. Não é de balizar o que vem no Facebook. Mas o Conselho de Arbitragem saberá tomar as medidas para saber a verdade. Quanto à expulsão de Brahimi e ao que vem no comunicado do Conselho de Disciplina, é importante saber o que está no relatório do árbitro e o que o CD apurou sobre isso, mas também que o CA esclareça a situação e informe o futebol sobre o que apurou.”

“Fait-divers para enganar”

Fortunato Azevedo Ex-árbitro e comentador do Tribunal O JOGO

“Entristecem-me algumas coisas que vêm a público. Não sei se estão ou não a falar verdade. O que sei é que isso é para esconder alguma coisa e às vezes, em vez de se olhar para dentro para encontrar as razões pelas quais não se conseguiu determinado objetivo, criam-se esses ‘fait-divers’ para enganar os associados. A nossa função é analisar o trabalho do árbitro e, em Braga, houve erros graves a penalizar o FC Porto. Quanto à página de Facebook, às vezes as pessoas usam e abusam, mas em consciência não posso falar, pois não sei se é de Tiago Antunes.”

Insultos ignorados

ARBITRAGEM Vídeo sustenta tese que aponta dualidade de critérios

Tiago Antunes, quarto árbitro do jogo de Braga, não terá esboçado qualquer reação aos impropérios de Rui Fonte, num lance com Maxi Pereira em cima do intervalo

Rui Fonte dirigiu impropérios a Tiago Antunes

Depois de analisar o relatório de Hugo Miguel, um momento da transmissão televisiva da Sport TV suporta a ideia dos responsáveis portistas de que o quarto árbitro, Tiago Antunes, teve dualidade de critério relativamente às atitudes dos jogadores. Nas imagens divulgadas, numa disputa de bola entre Rui Fonte e Maxi Pereira já em cima do minuto 45, é percetível que o avançado do Braga dirige impropérios a Tiago Antunes, sem que o quarto árbitro esboce qualquer reação.

No entender dos portistas, essa atitude contrasta com a que levou à expulsão de Brahimi, que viu o vermelho porque, segundo o relatório de Hugo Miguel, “aquando de uma situação de protestos por parte de todo o banco de suplentes do FC Porto, com o jogo interrompido, o jogador dirigiu-se ao quarto árbitro a gritar palavras de forma brusca e agressiva, tendo encostado a sua face à face daquele. As palavras proferidas foram impercetíveis.”

A suspensão de dois jogos aplicada ao internacional argelino revoltou os azuis e brancos, de tal forma que a SAD ainda pondera avançar para o recurso, depois de analisar detalhadamente o relatório do árbitro Hugo Miguel. Na ressaca do jogo, recorde-se, Francisco J. Marques, diretor de comunicação do FC Porto, apontou vários casos que não mereceram o mesmo tratamento e sustentou não haver “nenhum comportamento descrito como vem no mapa de castigos”.