Hoje mora e joga em Copenhaga e amanhã estará no meio dos Super Dragões

SCHUBERT NÃO MUDOU SÓ DE CLUBE

Dinamarquês jogou andebol no FC Porto e vê a vida de outra forma desde então. Hoje mora e joga em Copenhaga e amanhã estará no meio dos Super Dragões

Descobriu o Dragão em 2013 e nunca mais foi a mesma pessoa. Já foi a Brugge e hoje está em casa, mas a apoiar o visitante. Quando viu o sorteio da Champions, ligou “logo ao Macaco” a pedir bilhetes Já não há verdades absolutas. Um homem também já muda de clube… Sim, leu bem. Desde que jogou andebol do FC Porto, Mick Schubert mudou. O dinamarquês aprendeu a ver a vida de outra forma. “Em menos de duas semanas já era da família portista”, contou a O JOGO, enquanto atacava um hambúrguer tamanho XXL. “Hoje não treino, é folga”, explicou, baixando a voz como que a abafar o pecado para a consciência não o ouvir. “Aqui, na Dinamarca, é diferente. Primeiro o novato tem de provar alguma coisa para começar a ser aceite, ninguém se preocupa com ele, cada um olha para o seu umbigo. No FC Porto foi ao contrário. Primeiro estava o grupo e depois o indivíduo. Cheguei e logo no primeiro dia fui abordado por colegas de equipa a perguntarem se precisava de ajuda para alguma coisa. Fantástico! Foram atitudes estranhas para mim, mas que me mudaram”, explica. A frieza nórdica não é um clichê e contrasta com o que acontece em Portugal: “Uma vez perdi-me, morava em Faria Guimarães e não sabia para onde ficava, perguntei a um senhor onde era e ele nem hesitou, levou-me lá a pé. Na Dinamarca isso é impossível. Dizem logo que não sabem, para se afastarem”. Confirma-se: a reportagem de O JOGO perguntou três vezes para onde se dirigir para ir ao encontro de Schubert e as respostas foram vagas, pouco esclarecedoras, quase dadas por favor. Não fosse um telefonema para o dinamarquês mais português de Copenhaga e ainda agora andaríamos às voltas.

Mas então, portista porquê? “Pela mentalidade, por um clube que tem várias modalidades e adeptos que vão apoiar qualquer modalidade e também pela bondade e abertura daspessoas”,respondeu.“Ainda hoje mantenho contactos com alguns ex-colegas e falamos uma vez por semana”, continuou.

Mas há contactos e contactos e alguns dão bastante jeito. “É verdade, quando vi o sorteio da Champions liguei ao Macaco [Fernando Madurei-

ra] para ele me controlar um bilhete para ver o jogo no meio dos Super Dragões”, confessou. Dito e feito, Schubert estará lá no meio dos adeptos do FC Porto a apoiar, como em Brugge. “É verdade, acho que até fui um pouco inconsciente, porque rompi o tendão de Aquiles há uns meses e na altura ainda andava com uma bota ortopédica e caminhei desde o centro da cidade até ao estádio para ver o FC Porto. Devo ter feito uns 7 quilómetros. Foi uma asneira, mas valeu a pena, porque ganhámos”, sorri.

Mas há mais. Mal soube da lesão que vai impedir Cornelius – autor do golo no Dragão – de alinhar contra o FC Porto, Schubert tratou de passar a notícia para Portugal: “Mandei logo o link para o Macaco ver”.

Prova Adeptos em toda a Europa

A reportagem de O JOGO já havia estado com Schubert e Pallisgaard em Brugge, a 18 de outubro. Nessa altura foi no dia do jogo; agora, com os dinamarqueses em casa, aconteceu na antevéspera

Vítor Baía acendeu paixão

FOOTBALL MANAGER Pallisgaard jogava com o antigo guarda-redes. O amigo Schubert foi o clique final

Amigos de longa data que o FC Porto uniu. Michael Pallisgaard tinha no antigo guarda-redes um “fetiche” no célebre jogo de computador. Quando Schubert foi contratado, passou também a ser portista

Schubert não é caso único e há quem não tenha precisado de viver no Porto para se apaixonar pelos dragões. Michael Pallisgaard é amigo de longa data do ex-andebolista do FC Porto e o facto de Schubert ter aterrado na Invicta só veio contribuir para acender definitivamente a paixão pelo clube. “Era um agarrado do Football Manager [o mais famoso jogo de computador sobre de tática futebolística] e descobri o Vítor Baía no FC Porto, ainda antes dele se transferir para o Barcelona. Jogava sempre nas minhas equipas, porque era fantástico, defendia tudo e mais alguma coi-sa”,contouPallisgaard,sentado ao lado de Schubert. “Quando o Mick foi jogar para o FC Porto, aí a minha admiração pelo clu-becresceumaisaindaehojesou adepto, sigo tudo o que posso sobre o FC Porto”, explicou.

Mas não faltam razões para que-Pallisgaardapoieosdragões amanhã. “Ele é adepto do FC Porto, mas também apoia o Brondby aqui na Dinamarca”, acrescentou Schubert. “Cá a rivalidade entre o Copenhaga e o Brondby é semelhante à que existe entre FC Porto e o Benfica. Não os podemos ver”, explica ainda. “Bem, se o FC Porto vencer vou ficar muito satisfeito, isso não o desminto, mas não é só por ser adepto do Brondby. Isso só me motiva mais”, completou Pallisgaard, com uma gargalhada à mistura. “Na realidade, sou muito amigo do Mick e estou com ele nesta paixão pelo FC Porto. Amanhã lá estaremos a apoiar no meio dos Super Dragões”, garantiu.

Esteve no fecho do hepta

Em duas temporadas, Mick Schubert foi sempre campeão nacional e conquistou uma Supertaça

Mick Schubert esteve dois anos no FC Porto, nas épocas de 2013/14 e 2014/15, tendo ganho outros tantos títulos de campeão nacional, que selaram um inédito heptacampeonato – entre 08/09 e 14/15– no andebol português, e ainda uma Supertaça.

O ponta-esquerda, que foi o primeiro dinamarquês a jogar andebol dos dragões no espaço de 20 anos, uma vez que os anteriores – o lateral-direito Jesper Degn e o guarda-redes Soren Gottfredson – tinham estado no FC Porto em 1993/94, tem uma altura (1,93 metros) pouco habitual em Portugal para a posição que ocupa e surpreendeu desde logo pela facilidade de receção de bola a uma mão e remate de pronto.

Schubert era um “artista”, fazia golos de belo efeito, alguns em lances aparentemente impossíveis e assim encantou os adeptos portistas, especialmente durante a primeira temporada. Campeão europeu de juniores, sub-20, em 2008, na Roménia – em que Portugal foi sétimo – , Schubert participou também na LigadosCampeõesde2013/14, prova à qual uma equipa portuguesa não chegava há 11 anos. Agora joga no Ajax Copenhaga, segundo escalão dinamarquês.—R.G.

FONTE/ FC PORTO