Lucho: “Jogava dois meses de graça só para voltar a pisar o Dragão” Em entrevista ao Porto Canal

Lucho e a primeira passagem pelo FC Porto: “Jesualdo chateava-nos a cabeça”

Em entrevista ao Porto Canal, o médio do Atlético Paranaense falou sobre a primeira passagem pelo FC Porto, entre 2005 e 2009.

Ambiente do Dragão: “Habituei-me a jogar em grandes estádios, na Champions, na Libertadores, pela seleção, e não há estádio como o Dragão. É uma maravilha. Gostava de ter conhecido as Antas porque ouvi falar muito. É emocionante entrar aqui, estive na bancada contra o Marítimo e deu-me vontade de ir lá para dentro”.

Primeiro golo à FC Porto: “O primeiro golo contra Espanhol, na apresentação. Passe do Lisandro… No primeiro jogo neste estádio [Dragão]”.

Sobre Co Adriaanse: “Os adeptos ou gostavam ou odiavam o Co Adriaanse. Mudava muito. Até chegou a meter o Bruno Alves a avançado. Mas colocou a equipa a jogar de uma forma que não estava habituada. Senti-me importante, mas tinha as suas particularidades. Não dialogava muito com os jogadores, era um pouco frio e isso chocava com o grupo. A saída do Vítor [Baía] da equipa, a colocação de três defesas, ficar fora da Champions num grupo acessível… Pensei que ele no ano seguinte fosse ser diferente, mas tudo se complicou. Já falava português, conhecia mais o grupo. Convívio seria melhor, mas foi o contrário. Ele não mudou, continuou com as suas regras meias militares e surpreendeu-me, sobretudo como aconteceu”.

Jesualdo Ferreira: “Foi um dos que mais me marcou, aprendi muito, sobretudo sobre o que era mesmo o futebol europeu. Toda a gente aprendeu muito com ele. Mesmo sendo chato, porque às vezes queria fazer coisas e chateava-nos a cabeça, mas só temos de lhe agradecer”.

Mística: “É a história do FC Porto, lutar até ao fim, acreditar. Sacrifício, acreditar no dia dia, de quem joga e de quem fica de fora. É uma coisa que se transmite, foi o que Vítor Baía, Pedro Emanuel e Jorge Costa passaram para o Ricardo Costa, para o Raul Meireles, para o Bosingwa. Um legado, a conhecida mística do FC Porto: acreditar até ao fim contra todas as adversidades”.

Parceria: “O melhor avançado com que joguei e melhor me entendi foi o Lisandro”.

Lucho revela que chorou antes de deixar o FC Porto

O médio argentino deixou os dragões em 2009, depois de quatro épocas de azul e branco. Em entrevista ao Porto Canal, revelou que seguir carreira no Marselha foi uma decisão difícil.

Lágrimas na despedida: “A decisão não foi fácil. Fui de férias para a Argentina e o Deschamps ligou-me a dizer que era o principal objetivo do Marselha e eu a pensar que tinha medo de sair de um clube em que estava bem e ter de provar tudo de novo. ‘Não sei se o FC Porto me vai deixar sair, estou muito bem, vão pedir muito dinheiro’. Ele disse que isso não era problema, que só queria saber da minha disponibilidade. Disse que sim, mas depois acompanhava as notícias e a cada dia ia sendo mais real. Falei com Rui Carvalho [team manager] que ia no dia seguinte buscar as minhas coisas e emocionei-me”.

Liga Europa em 2011: “No ano seguinte [o FC Porto] ganhou a Liga Europa [n.d.r.: a vitória europeia surgiu dois anos depois], saí logo nessa altura, uma coisa que sempre quis, um título europeu. Mantive casa aqui”.

“Jogava dois meses de graça só para voltar a pisar o Dragão”

Sem pensar, para já, no regresso ao FC Porto, Lucho González admite, em entrevista ao Porto Canal, que gostaria de voltar a pisar o relvado do Estádio do Dragão.

Fim de carreira: “No dia em que a cabeça não acompanhar o físico, deixo o futebol. Continuo a desfrutar todos os dias de acordar para ir treinar. Ainda tenho mais um ano no Brasil, estou feliz lá. É uma experiência nova”.

Novo regresso ao FC Porto? “Não sei. Desfruto de estar aqui na cidade, de ver estes dois jogos, de cumprimentar as pessoas, ver o Nuno como treinador”.

Análise à equipa atual: “Tem estado bem. O último jogo foi daqueles que se precisa de ganhar mais na raça do que no jogo bonito. Vejo a equipa bem, os jogadores a conhecerem o clube em que estão, o treinador a passar as suas ideias. Ainda não será o futebol que o treinador quer e que todos gostaríamos de ver, mas o importante é que durante esse processo as vitórias continuem a aparecer”.

Comando técnico dos dragões no futuro? “A minha cabeça diz que sou jogador. Digo à minha mulher que quando acabar o contrato no Brasil vou tentar falar com o presidente e dizer que jogava de graça aqui dois meses só para voltar a pisar o Dragão”.

Regresso à cidade do Porto: “Quando deixar de jogar, se a minha ideia passar por estar ligado ao futebol, não tenho duvida de que vou tentar estar aqui no FC Porto”.

O “momento Kelvin” descrito por Lucho González

Depois de regressar ao FC Porto, em 2012, Lucho González conquistou o título “mais festejado”, graças ao histórico golo de Kelvin, em 2013.

Regressa e abdica de muito dinheiro: “Sim. Tinha até uma proposta do Internacional de Porto Alegre que me dava o mesmo que o Marselha. A minha mulher, portuguesa, estava na dúvida sobre ir para o Brasil. Surgiu o FC Porto. Tinha outras alternativas, em Itália, mas no momento em que apareceu, disse ao meu empresário para esquecer tudo”.

Trabalho com Vítor Pereira: “Sabia que tinha sido adjunto de Villas-Boas. Pediu-me para ajudar no balneário que tinha muitos sul-americanos”.

Momento Kelvin: “Dos títulos que consegui aqui foi o mais festejado [2012/13], o mais difícil, só o grupo acreditava que era possível, mesmo os adeptos não acreditavam. Vejo as imagens e parece um filme. Mesmo que quisesses fazer um final assim não saía bem. Penso que o Jorge Jesus nunca mais deve ter visto aquelas imagens. Não me lembro de ouvir tanto barulho num golo como naquele. Foi uma loucura, não sabíamos como festejar sequer. Só queríamos que o jogo acabasse”.

Meio ano com Paulo Fonseca: “Ideias novas de um treinador com outras exigências. Experiência boa para ele aprender. Não conseguimos captar as ideias dele, o rendimento pessoal não era o que podíamos dar”.

Lucho: “Nuno disse-me que se fosse treinador eu não jogava mais”

Companheiro de equipa de Lucho no FC Porto, o agora treinador dos dragões chegou a repreender o argentino num jogo da Liga dos Campeões.

Lucho González e Nuno Espírito Santo foram companheiros de balneário durante a primeira passagem do argentino pelo FC Porto. Mesmo enquanto jogador, o agora técnico dos dragões já evidenciava queda para a carreira atual, algo que ficou comprovado depois de um jogo da Liga dos Campeões, em que os azuis e brancos bateram o Dínamo de Kiev por 2-1:

“Marquei o golo no último minuto, esqueci-me que tinha o amarelo. Estávamos a passar uma fase má e se não ganhássemos esse jogo estávamos fora da Champions. Lembro-me que o Nuno disse-me ‘tu não podes fazer isso, não podes tirar a camisola’. Perdi o jogo seguinte na Turquia e o Nuno a dar-me uma dura reprimenda: ‘se fosse eu o treinador, comigo não jogavas mais'”, contou Lucho, em entrevista ao Porto Canal. Sobre a “consciência” de técnico que Nuno já evidenciava, o argentino recorda a importância do ex-guardião para o bom ambiente do grupo de trabalho.

“Era um grande guarda-redes que soube esperar os seus momentos, mas já se via que acompanhava por trás, sempre. Era muito importante para o grupo e extremamente positivo, jogasse ou não”, rematou.

Fonte: Ojogo