No topo da europa aos 21 anos

O melhor ponta de lança da Europa com 20 anos entra hoje noutro patamar com a ambição de sempre. O jogo com o Benfica é o ideal para atingir uma das poucas metas que lhe faltam: marcar a um grande

ANDRÉ MORAIS FIGURA André Silva celebra aniversário com números que ninguém supera entre os avançados da mesma idade. Hoje é seta apontada ao Benfica

André Silva completa hoje 21 anos de idade no topo do futebol europeu, pelo menos no que diz respeito aos jogadores do mesmo escalão. Não há nenhum outro com melhor média de golos do que o portista. E não nos referimos às ligas principais, mas a todas do Velho Continente que começam em agosto e terminam em maio. De fora, só mesmo as que ainda se jogam ao ritmo do ano civil e que nesta fase estão prestes a terminar. Muito poucas, portanto. Dembélé (Celtic), Enes Ural (Twente), Marcus Ingvartsen (Nordsjaelland) e Dimitri Oberlin (Altach) são os outros sub-21 que vão brilhando lá fora, mas todos abaixo na relação golos/jogos. A esse nível, só mesmo Dembélé se aproxima: 0,57 golos por jogo, contra os 0,63 do portista nas mesmas competições. É também por isto que a Europa está de olho nele e Pinto da Costa até já disse que teve propostas de 60 milhões para se desfazer de imediato da joia da coroa do dragão.

Quando esta manhã tiver o bolo de aniversário à espera no Olival, o ponta de lança sabe que está a soprar 21 anos de sucesso e uma ascensão meteórica, como eventualmente nenhum ponta de lança da história recente do futebol português viveu. A André só falta mesmo marcar a um grande para preencher uma folha de recordes que começa a ser muito extensa para uma carreira ainda tão curta (ver peça ao lado). Lançado por Julen Lopetegui há pouco menos de um ano, mas aposta firme apenas mais tarde, já com José Peseiro, foi na final da Taça de Portugal que o ponta de lança começou a deixar marca. O bis ao Braga foi o clique para o que se seguiu: 22 golos em 26 jogos, particulares incluídos. Ao todo, André marca, no campeonato, um golo a cada 150 minutos, média que acaba por ser prejudicada por uma primeira temporada fraca coletivamente e na qual ia sendo lançado de quando em quando, mais de forma aleatória do que propriamente como grande aposta. Na época que corre, a média é de um golo a cada 111 minutos, melhor do que fez Jackson Martínez na sua passagem pelo FC Porto: um tento a cada 117 minutos. É impossível lançar já André para a órbita dos grandes pontas de lança da história do clube, mas, a cada semana, o avançado vai dando mostras de estar mais perto disso.

Hoje, 6 de novembro de 2016, André Silva comemora então o 21.º aniversário e vai a jogo contra o Benfica. O melhor presente, dirá o próprio, será a vitória contra o velho rival, ao qual marcou na formação e na primeira época que fez na equipa B, ainda com idade júnior. O avançado andou quase sempre um passo à frente do que a idade supunha. E apesar de só hoje completar 21 anos, já deixou de ser uma esperança há muito. Nas Seleções, por exemplo, Rui Jorge só conseguiu contar com ele meio ano. Agora é de Fernando Santos.

Invicta a ligar toda a carreira

São 14 anos desde o primeiro treino no Salgueiros até ao FC Porto, com passagem falhada pelo Boavista

Um dia fez 15 golos e saiu para não humilhar o rival. Noutro decidiu ir para o Boavista porque não queria ser segunda figura no Salgueiros. E aí encontrou a força que faltava

André Silva nos juvenis, em janeiro de 2012André Silva começou no Salgueiros por acaso. O primo, também ele jogador, mas de clubes da AF Porto, sabia que o miúdo tinha jeito para a bola e não deixou passar em claro umas captações em que “tropeçou.” Com sete anos, André foi aprovado no primeiro treino e rapidamente batizado de Deco, por ter começado a jogar como médio-ofensivo, ter jeito para o golo e fisicamente ser parecido, ao ponto de usar o cabelo rapado, como nessa altura o brasileiro, a brilhar intensamente no FC Porto, tinha com frequência.

No Salgueiros, André fez-se craque e começou a despertar o interesse de outros clubes. Uma vez, num torneio de escolas em Via nado Castelo, marcou 15 golos e festejou sempre como se fosse o primeiro, ao ponto de o treinador o ter substituídopar anão humilhar o adversário. Apesar de ainda criança, o jogador sabia o que valia e não admitiu integrar a segunda equipa salgueirista na transição para os iniciados. Por isso saiu para o Boavista, mas no Bessa as coisas não correram bem e foi obrigado a regressar, envergonhado por ter de assumir o fracasso e dar um passo atrás. Conta quem melhor o conhece que por essa altura meteu na cabeça que ia provar que era o melhor de todos e a verdade é que disparou de tal forma que apareceram todos os grandes a bater à porta do Salgueiros. Os pais não o queriam ver longe e André agradeceu. Afinal, o coração era azul e branco e era no Dragão que sonhava jogar.

Em 2011, já mais alto mas ainda magrinho, entrou no Olival e rapidamente se tornou um indiscutível. Dois anos depois rebenta de vez: 28 golos no Campeonato Nacional de juniores. A formação começava a ser curta para tanto talento e “Deco”, perdão, André Silva, salta para a equipa B, onde trabalhou a tempo inteiro com Luís Castro para se fazer um avançado de topo, alternando jogos na segunda equipa e nos juniores. Com a saída de Gonçalo Paciência, que tinha mais um ano, ficou a sós na equipa e começa 2015/16 às ordens de Lopetegui. Continuou a moldar-se e na II Liga já era, destacado, o melhor marcador. Em janeiro subiu à equipa principal a tempo inteiro. O que se seguiu já todos sabem…

CUSTOU MIL E JÁ RENDEU DOIS MILHÕES

O FC Porto comprou André Silva ao Salgueiros por mil euros. Na altura, os salgueiristas queriam bem mais, por pensarem que os dragões o pagariam, mas estes puxaram das boas relações com o Padroense e o Salgueiros acabou por baixar para os tais mil euros por acreditar que o jogador iria para lá. E foi, ao abrigo de um protocolo antigo, mas só durante uma temporada. Depois, André cresceu sempre na formação azul e branca e este ano não só já se pagou como se tornou rentável em dois milhõesde euros, vis toque transformou dois empates como Brugge (500 mil euros cada) em duas vitórias (1,5 milhões ). E isto sem incluir a ajuda importante para que o FC Porto entrasse na fase de grupos da Champions.

MELHOR SÓ DOMINGOS EM 1995/96

Nos últimos 20 anos, nenhum outro português marcou tanto pelo FC Porto, num arranque de época, como André Silva. Para encontrar melhor é preciso recuar até 1995/96 e encontrar Domingos Paciência, pai de Gonçalo, com quem André partilhou muitas vezes o ataque portista na formação. À nona jornada de 1995/96, Domingos tinha nove golos e na 10.ª faria mais dois. Curiosamente, foi nessa época que André Silva nasceu.

Seleção Nacional Currículo quase completo

O hat trick às Ilhas Faroé aumentou a cotação de André Silva, já depois de um golo a Andorra na primeira vez que foi titular pela Seleção Nacional. O avançado foi o mais jovem a fazer um hat trick em menos de 45 minutos e somou mais números estrelados a uma constelação que começou nos sub-16. Com presenças em todas as Seleções (e golos em todas menos nos sub-18), André soma 74 jogos com a camisola de Portugal e 35 golos. Arredondando, um a cada dois jogos.

FONTE/ O JOGO