O poder central

Em fase de todas as decisões, os centrais Miguel Martins e Rui Silva explicaram à “Dragões” como jogam e fazem jogar

 

Por João Queiroz

São os dois centrais da equipa e também dois dos jogadores mais jovens do plantel – Rui Silva acabou de fazer 24 anos, Miguel Martins está a caminho dos 20. Mas não é a idade que os impede de serem os líderes em campo pela posição que ocupam. São eles quem pensa o jogo, são eles que jogam e fazem jogar, são eles que têm por missão encontrar os caminhos para a baliza e deles depende muito o êxito de um ataque.

Numa adaptação mais ou menos livre à linguagem do futebol, os centrais seriam os jogadores do meio-campo, os que transportam a bola. São os criativos, os que assumem a batuta do jogo, os que criam as oportunidades para os extremos (os pontas) e para os pontas de lança (os pivôs) chegarem ao golo. São os comandantes, os maestros da equipa. “A posição em que jogamos, aquilo que nós gostamos de fazer em campo, pressupõe que sejamos líderes por natureza. Temos que saber levar os nossos companheiros na direção do golo. Essa é a nossa tarefa mais importante em jogo”, explica Miguel Martins à “Dragões”.

Liderar, saber lidar com o jogo, é o que Ricardo Costa mais lhes pede, conta-nos Rui Silva: “Como líderes, temos que orientar a nossa equipa da melhor forma, fazê-la jogar. Muitas vezes, é mais importante pormos os outros a jogar e fazer uma assistência do que marcar. É por aí que temos que pensar e que ir para atingir o sucesso”. À luz da anatomia, o central é como que o cérebro da equipa, “aquele que pensa em tudo, pelo colega do lado e pela equipa em si, que tem que saber manter a serenidade quando é preciso procurar a melhor situação no melhor momento”.

Os centrais são os responsáveis pela construção e organização do jogo ofensivo. Devem, portanto, dominar os conceitos de tática e técnica individual. Eles e os outros, mas os jogadores da primeira linha sabem que qualquer falha a esse nível pode comprometer seriamente o êxito do ataque. É aqui que entra a tomada de decisão, aspeto do jogo que é treinado desde cedo, sublinha Miguel Martins: “Tanto eu como o Rui começámos com cinco anos, essas são questões que aprendemos desde muito cedo. Fomos formados para isso, para saber decidir bem, porque sabemos que uma má decisão pode ser fatal. Mas a verdade é que só falha quem lá está e, quer seja uma boa ou má decisão, também sabemos que temos o grupo para nos apoiar”.

Duas cabeças a pensar
Porque atuam na mesma posição, poder-se-ia até falar de rivalidade. Neste caso, porém, deveremos antes falar de cumplicidade, até porque o sistema de Ricardo Costa, não raras vezes, privilegia a presença de ambos na primeira linha sendo que um deles assume as funções de lateral. O sistema permite permutas sucessivas entre os dois, permite descobrir mais espaços para finalizar na linha dos seis metros e construir jogo para os laterais. Com os dois em campo, o jogo ganha em fluidez e em imprevisibilidade. “Torna-se diferente pelo tipo de jogadores que somos, porque obriga também a quem está a lateral esquerdo a fazer outro tipo de coisas, a ter outro tipo de decisões, a ter outro tipo de soluções que os laterais de raiz normalmente tomam”, admite Rui Silva. Até porque, assim, não há apenas um em campo a arquitetar o jogo. “Como se costuma dizer, duas cabeças pensam melhor do que uma. E isso traz benefícios não só para mim e para ele a nível individual, mas também para a equipa”, acrescenta Miguel Martins.

Este texto é um excerto da entrevista de Miguel Martins e Rui Silva à edição de maio de 2017 da “Dragões”, a revista oficial do FC Porto, que pode ler na íntegra aqui.

Fonte: FC Porto