Onde estava no 25 de abril?

Quando Rolando era o capitão, Cubillas a estrela, Gomes a promessa e a equipa de hóquei em campo foi retida na fronteira

 

Texto: Paulo Horta / Museu FC Porto by BMG

Como foi o 25 abril no FC Porto? O golpe militar de 1974 mexeu com o clube logo no próprio dia da revolução, fazendo com que a equipa de hóquei em campo cumprisse de autocarro parte da viagem para a Suíça, onde a esperavam dois jogos da Taça dos Campeões Europeus.

Dias antes, a 20 de abril, os sócios reconduziram Américo de Sá na presidência do FC Porto. A Direção já vinha a gerir um período emocionalmente muito particular dentro da família portista, com incidência direta sobre a equipa principal de futebol e medido entre a dor provocada pela morte de Pavão (16 de dezembro de 1973) e a euforia potenciada pela chegada de Cubillas (janeiro de 1974). A viragem política e a agitação social verificadas no país acentuaram, naturalmente, a delicadeza do momento.

No dia do golpe militar, chegou às bancas o último número do jornal “O Porto” (antigo órgão oficial do clube) editado sob a censura prévia estabelecida pela ditadura. Na capa, dominavam a vitória (1-0) do FC Porto sobre o Barreirense no fim-de-semana anterior, em jogo para o Campeonato Nacional da 1ª Divisão de futebol, e o ato eleitoral interno. Negava-se, também, uma mudança na equipa técnica de futebol, na qual Béla Guttmann cumpria uma segunda experiência a azul e branco.

Naturalmente, a profunda alteração de paradigma em Portugal só viria a refletir-se (um pouco) na edição seguinte do jornal, publicada a 2 de maio. Embalados pela força da avalancha de liberdade, os dirigentes do clube decidiram, também nesse dia, redigir uma posição oficial definitiva sobre os acontecimentos históricos no país. “A Direcção do FC Porto, interpretando o sentir da sua massa associativa, regozija-se com o momento de alegria que o País atravessa e comunga na esperança de um Portugal melhor”, foi a posição tomada e lavrada em ata.

Sem considerações de qualquer outro calibre, ou que pudessem ferir os estatutos do clube (explicitamente apolíticos), o FC Porto saudou assim a entrada de Portugal numa nova e ansiada era. Curiosamente, a última Direção eleita ainda sob o regime da ditadura foi a primeira a ser empossada (Junho de 1974) no advento da democracia, que levantou o manto cinzento do centralismo e da proteção velada aos emblemas da capital.

Parados na fronteira
Manifestações populares, incidentes, tropas na rua e a tomar posições estratégicas na cidade e na área metropolitana do Porto. Com a revolução em curso, os primeiros a sentir mais diretamente os efeitos do golpe foram os atletas seniores de hóquei em campo.

Com viagem agendada para 26 de abril com destino à Suíça e a dois jogos a contar para a Taça dos Campeões Europeus, a equipa teve de antecipar a partida para o dia 25. Em Pedras Rubras, o aeroporto foi ocupado pelos militares, que encerraram o tráfego aéreo, e o que ia ser uma viagem de avião para a comitiva portista transformou-se numa etapa em autocarro até Madrid, a partir de onde a viagem prosseguiria por via aérea.

Em Vilar Formoso, na noite de 25 para 26 de Abril, a equipa do FC Porto deu de caras com a fronteira fechada. Foi necessário esperar por uma ordem da Junta de Salvação Nacional (acabada de instituir para assumir a gestão do país no processo de transição para o novo regime) que autorizasse os militares a abrir a passagem ao autocarro que transportava os hoquistas azuis e brancos. A ordem só chegou às… 15:30 horas do dia 26 e só no dia 27 a equipa pisou, finalmente, solo suíço.

Nóbrega, Abel e o Barreirense
Nos dias 21 e 28 de abril, o FC Porto defrontou o Barreirense no Estádio das Antas, primeiro para o Campeonato Nacional da 1ª Divisão de futebol, depois, para a Taça de Portugal, vencendo ambos os jogos, por 1-0. Nóbrega foi o autor do último golo portista apontado com o país ainda sob o domínio da ditadura, e foi Abel quem marcou o primeiro golo azul e branco após a revolução.

Reunião de Direção
Na noite de 26 de abril, quando já se respirava há mais de 24 horas a liberdade instaurada no país, a Direção do FC Porto reuniu-se na antiga sede do clube, à Praça do Município (atual Praça General Humberto Delgado). Futebol, basquetebol, ciclismo, natação, questões relacionadas com as instalações desportivas e com o departamento médico do clube constituíram a agenda.

Gomes, o início da lenda
Em 1974, o central Rolando era o capitão da equipa de futebol do FC Porto. Referência histórica do clube em que ainda continua a desempenhar funções, Rolando assistiu nesse ano à chegada de Cubillas ao balneário azul e branco. O talento peruano instalou-se na equipa como uma divindade personificada, mas o ano de 1974 marcaria ainda o começo de uma lenda do futebol azul e branco e português. Em Agosto, o ponta-de-lança Fernando Gomes cumpria a estreia pela equipa sénior em jogo particular, frente aos polacos do Ruch Chorzow; em Setembro, já decidia no Campeonato Nacional da 1ª Divisão: dois golos à CUF, logo na primeira jornada.

Este texto foi publicado na rubrica “Os Imortais” da edição de abril da revista “Dragões”, publicação oficial do FC Porto disponível nas bancas e que pode ser subscrita aqui.