Os primeiros campeões

O vencedor do primeiro Campeonato de Portugal, em 1922, foi também o primeiro a conquistá-lo pela segunda vez

 

Texto: Victor Queirós/Museu FC Porto

Junho é historicamente um dos meses de eleição do FC Porto, que há 94 anos dava o pontapé de saída na formidável coleção de títulos que faz do Dragão o mais coroado competidor nacional e um dos clubes mais respeitados à escala internacional. Foi neste mês, em 1922 e 1925, que o FC Porto plantou na história dois marcos incontornáveis: foi o primeiro Campeão de Portugal e o primeiro a bisar na prova.

O primeiro título oficial da história do futebol português é do FC Porto e vem de 1922, conquistado sobre o Sporting a 18 de junho, a três dias do solstício de Verão. Bastaram três anos para o FC Porto colocar outro marco inamovível na História, ao cair de junho de 1925, novamente indiferente à boca do leão, a primeira grande vítima do FC Porto à dimensão nacional.

Eram tempos de afirmação e muita excitação, os daquele poderoso FC Porto dos anos 1920, presente em três das quatro primeiras finais do Campeonato de Portugal, a prova que, por efeitos de fórmula (eliminação), viria a dar lugar à Taça de Portugal, quando a I Liga (1935) e pouco depois a I Divisão (1939) passaram para a cabeça do calendário para se encontrar o campeão em versão “todos contra todos”.

Recordista de títulos (conquistou o terceiro em 1932, com Joseph Szabo, e o quarto em 1937 com François Gutkas), o FC Porto iniciou o ataque à primeira prova oficial a nível nacional no dia 4 de junho de 1922, na primeira mão da final, disputada na Constituição e com árbitro inglês. Venceu por 2-1, aí se assistindo, também, à primeira reviravolta de sempre, da autoria de Tavares Bastos, tripeiro de 25 anos, puro-sangue do golo, com um bis a anular o golo do sportinguista Emílio Ramos, a abrir o encontro histórico.

Desinspirados e eventualmente vítimas de um certo convencimento, os portistas perderam a segunda mão no Campo Grande, com árbitro espanhol, mas a moeda ao ar deu-lhes a escolha de campo neutro para a “negra”. No Campo do Bessa, no Porto, a finalíssima foi acesa mas correcta, com os leões recebidos como reis e um pormenor inimaginável: a União Portuguesa de Futebol, que daria origem à FPF, esqueceu-se de nomear árbitro… O respeitado Neves Eugénio, de Coimbra, foi recrutado na bancada. O tempo regulamentar terminou com um empate a um golo, mas o FC Porto, avassalador no prolongamento, marcou dois golos em dois minutos. Estava encontrado o primeiro Campeão de Portugal.

Pouco mais de três anos e três finais depois, a 28 de junho de 1925, o título decidia-se num único jogo (Lisboa seria palco de 10 das 16 finais da competição a um jogo só, contra apenas uma do Porto…), com um FC Porto em renovação, gerando apenas quatro históricos bicampeões, consequência da troca de Cassaigne, primeiro campeão, por Teszler, primeiro técnico remunerado na história do clube. Júlio Cardoso, Floriano Pereira, João Nunes e Balbino foram os quatro primeiros portugueses a vencer por duas vezes a prova, num jogo em que o FC Porto venceu à tangente um Sporting praticamente igual ao de 1922 (nove repetentes em onze).

Esse célebre jogo seria ainda recordado como o voo para a eternidade de um jovem húngaro acabadinho de fazer 19 anos, Mihaly Siska, que, logo naturalizado, rapidamente viria a ganhar o cognome de Miguel-Meia-Equipa, entrando ainda menino e moço para a lenda portista, consolidada por dez anos de grandes exibições e, como mandou o seu destino, primeiro treinador bicampeão nacional do FC Porto, em 1939 e 1940.

OS QUATRO MOSQUETEIROS

Floriano Pereira, o Conquistador
Extraordinário médio que projetou entre 1910 e 1926 toda a liberdade criativa que existia nos primórdios do futebol, em que as amarras tácticas não tinham lugar. Foi um portista de grande coração, que arrancou as mais belas palavras aos jornalistas da época, impressionados com a sua classe, entrega, sentido de responsabilidade e solidariedade. Capitão venerado, que entrava com o opositor em campo para dividir com ele os aplausos, teve a mais perfeita identificação com o jogo e o símbolo. Conquistou 11 troféus oficiais.

Júlio Cardoso,o Colecionador
Foi o defesa direito dos dois primeiros Campeonatos de Portugal que o FC Porto conquistou, um homem indispensável para Cassaigne e Teszler, e um dos primeiros futebolistas a passar a trintena de jogos, mesmo perdendo uma época e meia, por deveres militares. Os dois títulos de Campeão de Portugal separados por três anos são a marca de eleição de um defensor que deixou rasto: a sua coleção de títulos (oito) foi das mais vistosas dos primórdios portistas e a seleção da AF Porto jamais prescindia dele.

João Nunes, o Inventor
Atacante refinado, extremo inventor de grande qualidade, esteve em três das primeiras quatro finais, apesar de um ano parado (1923). Elemento imprescindível para Cassaigne e Teszler, que faziam recurso dele mesmo em períodos em que não lhe era possível acompanhar minimamente a preparação. Foi um bicampeão de referência, imprescindível nas grandes finais, em que a sua inesgotável capacidade técnica definia o curso do jogo enquanto as pernas não enegreciam pelas sucessivas entradas dos adversários, mais surpreendidos que maldosos, mas sempre castigadores…

Balbino, o Sobredotado
Abriu caminho ao primeiro título de Campeão de Portugal do FC Porto e manteve a chama acesa até se sagrar bicampeão de Portugal. Jogava indiferentemente em qualquer posição e foi o único da geração ‘nacional’ que conheceu os quatro primeiros técnicos da era de afirmação: Cassaigne, Teszler, Cal e Szabo, pormenor que reflete bem a estima e a influência que Balbino exercia. Antigo casapiano, foi o segundo internacional da história do FC Porto, tendo sido considerado o jogador mais qualificado tecnicamente na década de 1920.

O TÍTULO PELOS CORNOS
Floriano e Balbino, duplos campeões de Portugal, ficaram também famosos pela grande coragem. Estiveram nos campos de batalha na I Grande Guerra e tinham um hobby de arrepiar: o toureio a pé. Em 1922, a famosa Garraiada da Areosa de comemoração do primeiro título nacional de sempre tinha uma “cuadrilla” de luxo, entre forcados e campinos-andarilhos: Floriano, Balbino, Alexandre Cal, Lopes Carneiro, Tavares Bastos. Tudo campeões. “Com o seu proverbial desprezo pelo perigo”, Lopes Carneiro foi o homem do dia. Colocou bandarilhas, fez pegas, deu quedas terríveis, acabou em ombros. Alexandre Cal, famoso pelos golos, “colocou ferros esplêndidos”, rezam as crónicas da altura. Os restantes campeões não deixaram créditos por touros alheios. Umas costelas amassadas e alguns adesivos a decorar dorsos e pernas não fizeram perder o apetite, com o bacalhau, a seis escudos o quilo, rei no banquete dos pioneiros campeões.

Texto publicado na rubrica “Os Imortais” da edição de junho de 2014 da “Dragões”, a revista oficial do FC Porto, que pode subscrever aqui.

Fonte: FC Porto