Primeiro clássico na Liga foi há 82 anos

Jogo foi com o Benfica, no Estádio da Lima, e saiu vencedor o FC Porto

 

Qual foi o primeiro clássico a que assistimos nas nossas vidas? Muitos de nós terão a resposta na ponta da língua e lembrar-se-ão de onde estavam no estádio e de quem marcou os golos. No lançamento do esgotado FC Porto-Benfica desta sexta-feira, fomos à procura do primeiro clássico na Liga, cuja edição inaugural, ainda com a designação de experimental, decorreu em 1934/35.

Consultando os arquivos, chegámos à terceira jornada (3 de fevereiro de 1935) e encontrámos o jogo em questão: um FC Porto-Benfica, disputado no Estádio do Lima, que os Dragões venceram por 2-1. Os golos foram de Lopes Carneiro (natural de Santa Maria da Feira, tal como Monteiro da Costa), aos 15 minutos, e de Pinga, aos 60, com Alfredo Valadas a marcar o único golo dos encarnados, aos 62 minutos.

Ao final desta terceira jornada, o FC Porto liderava a Liga, com cinco pontos, os mesmos do Belenenses, mas com melhor saldo de golos. Na ronda seguinte até perderia em Setúbal com o Vitória, descendo ao terceiro lugar, mas ganharia o primeiro título da prova, com 22 pontos, à frente do Sporting. Para tal muito contribuiu o trabalho do inovador e disciplinador treinador Joseph Szabo: além desta Liga, conquistou o Campeonato de Portugal (competição antecessora da Taça de Portugal) de 1931/32 e seis Campeonatos do Porto, nos seis anos em que comandou a equipa.

Mas voltemos ao jogo: a expectativa que o rodeava era grande, visto que na memória ainda estava a goleada que o FC Porto aplicara ao Benfica em maio de 1933: 8-0, para o Campeonato de Portugal. Quase dois anos depois, ainda sob o comando de Szabo, os portistas alinharam com Soares dos Reis, Avelino Martins, Jerónimo Pereira, Carlos Pereira, João Nova, Acácio Mesquita, Pinga, Carlos Nunes, Valdemar Mota, Álvaro e Lopes Carneiro, num tempo em que ainda não eram permitidas substituições.

As imagens que mostramos do encontro são da edição de 6 de fevereiro de 1935 da revista Stadium, que incluía ainda um comentário, de uma perspetiva bastante sulista. Há mesmo coisas que nunca mudam: basta dizer que a foto da capa era de um encontro do Sporting para se perceber a tendência da publicação.

A crónica divide a partida em duas partes: a primeira de “excelente futebol” do FC Porto; a segunda de “surpreendente domínio do Benfica”. “O Porto fez gala, nos 45 minutos iniciais, de uma rapidez executiva e espontaneidade de concepção esplêndidas. Nunes foi o grande homem da tarde, pelo Porto. Enquanto pôde, revelou uma habilidade, com domínio enorme de bola e desconcertante visão do perigo a provocar”, lê-se no texto. Não vivíamos um tempo de liberdade de expressão, bem pelo contrário, mas o cronista exerceu o seu direito à opinião sobre o árbitro, de forma lapidar: “O sr. Manuel Oliveira não tem estofo para tanta monta”.