SOARES: UM DRAGÃODA TERRA DOS DINOSSAUROS

CARREIRA Passou por 14 clubes até chegar ao FC Porto, foi rejeitado em muitos deles e pensou em abandonar o futebol. Hoje volta a Guimarães

Nasceu numa pequena cidade, mais conhecida pelas pegadas de um animal já extinto. Com os dois golos ao Sporting, deixou uma marca de dimensão parecida. E todos estão orgulhosos

Foi numa escolinha de futebol de Sousa, sertão do estado da Paraíba, conhecida como“T errado Vale dos Dinossauros” por possuir o maior trilho do mundo com pegadas dessa espécie já extinta, que Soares apareceu para o mundo do futebol. Hoje, está em condiçõesde deixa ruma marca tão forte como as tais pegadas de dinossauros. O JOGO foi às origens para perceber quem era Tiquinho antes de ser Soares, que é como quem diz, quem era o miúdo franzino antes de se tornar um ponta de lança poderoso.

Filho de pedreiro e de doméstica, Francisco Soares vendia gelados na rua para ajudar os pais. Ainda na infância, também dedicava o seu tempo a jogar futebol nos campinhos do Bairro do Angelin.Foin essa altura que ganhou dos familiares o apelido de “Tiquinho” por causa da sua débil condição física. Magro, ágil e habilidoso, foi convidado a participar nos treinos da escolinha de futebol do bairro, o Centro Recreativo do Angelin. “Soares sempre foi um menino de boa conduta, sempre teve vocação para ser profissional, por ser muito dedicado e por causa dos sonhos que alimentou. Eu fui o primeiro treinador, ainda nos tempos em que ele jogava na minha escolinha, o Centro Recreativo do Angelin”, apresenta-se Nildo Lima, treinador e amigo de infância. “Foi triste vê-lo partir para outra cidade, mas a minha felicidade veio depois”, completa. No início dos anos 2000, Tiquinho partiu com os pais com destino a Natal, capital do estado do Rio Grande do Norte. Passou depois por vários clubes. Brilhou nos sub-17 do Palmeira de Rocas, onde foi o melhor marcador com 20 golos e saiu para o América de Natal, um clube referência no Nordeste brasileiro. Lá as coisas não correram muito bem e o avançado passou pelo Palmeiras de Alagoinha, Caicó e Corinthians AlagoanoantesdevoltaraParaíba, para jogar no Botafogo local.

Em 2011 desceu novamente para o Sousa Esporte Clube. De rejeição em rejeição, e com períodos tão curtos em todas as equipas onde jogou, Soares equacionou abandonar o futebol. Felizmente para ele, apareceu o Centro Sportivo Paraibano, onde voltou a aparecer. “O Tiquinho despertou o interesse do CSP jogando contra a nossa própria equipa em jogo da Copa Paraíba, quando ainda defendia o Botafogo – PB. Após o interesse, assinámos e asseguramosos direitos de passe do atleta”, confirmou Josival Alves, presidente do CSP. Mas, mais uma vez, não correu como planeado e o atacante foi emprestado ao Cerâmica, Veranópolis e, posteriormente, ao Pelotas. Terminaria ali a sua passagem pelo futebol brasileiro. Depois, veio o Nacional e o resto da história já se sabe. A li-gação a Sousa, no entanto, não se perde, no entanto. Visita frequente, o goleado ré uma referência par aos miúdos que continuama vender gelados na rua e alimentam o sonho de também cruzar o Atlântico. E ajuda muito, desde o apoio moral até à doação de material desportivo. “Agradeço sempre a ele por ser um profissional e um ser humano fantástico, que não esquece as suas origens” – afirmou Josival Alves. Soares chegou a participar em palestras e envia vídeos e discursos para que os treinadores possam dar a conhecer a sua história a quem sonha um dia brilhar num grande Europeu, como Soares está agora a fazer no FC Porto. Afinal, ele próprioéu ma história de superação.

Em Guimarães só querem jejum

Avançado deixou saudades na Cidade-Berço e será bem recebido. Vitorianos esperam que não marque

“Não há ressentimentos. Ele ajudou o Vitória e deu dinheiro ao clube”
Vander
Churrasqueiro no “Migas” “Será bem recebido. O meu sobrinho só não quer que marque”
Rita Ribeiro
Proprietária da “Casa da Chica”

A picanha do “Migas” ou o bolo de chocolate da “Casa da Chica” faziam as delícias do brasileiro na Cidade-Berço, onde não existem ressentimentos pela saída para o FC Porto

Três semanas depois de se ter despedido do Vitória para rumar o FC Porto, Soares volta hoje a uma cidade que chamou sua na primeira metade da época futebolística. Um regresso há muito aguardado por todos e que decerto despertará no atacante um conjunto de memórias que até há bem pouco tempo faziam parte do seu dia a dia. O JOGO fez uma viagem pelos locais mais frequentados pelo brasileiro no “Berço de Portugal” e descobriu um pouco dos seus pequenos-almoços e lanches na “Casa da Chica”, os almoço sou jantares no“Migas ”, a sidas ao Infantário Nuno Simões para buscar o filho e até as brincadeiras com o pequeno Cristiano no parque Infantil da Praça da Igualada.

Quem com ele conviveu garanteque Soares deixou saudades. Não sópel apostura afável fora dos relvados, como pelos golos apontados ao serviço do Vitória, no caso do último( Braga) ainda está bem fresco na memória de todos. Por isso, a receção de hoje no D. Afonso Henriques perspetiva-se tudo menos hostil. “Não há ressentimentos. Ele ajudou o Vitória enquanto cá esteve e ainda permitiu ao clube ganhar algum dinheiro”, lembra Vander, brasileiro de 41 anos, que assava no “Migas” a picanha que Soares tanto apreciava. “Pelo que vou ouvindo, acho que será bem recebido. O meu sobrinho, que tem 12 anos, gostado muito dele[ Soares] e já me disse que só espera que ele não marque neste jogo”, conta, por sua vez, Rita Ribeiro, de 28 anos, proprietária da “Casa da Chica”, onde o agora portista se deliciava com uma fatia de bolo chocolate.

Personalidade reservada não o levava a esconder-se

Foi no 247 da Rua Antero Henriques da Silva, paredes meias como Centro de Treinos do Vitória, que Soares viveu em Guimarães. Era no conforto do lar, de resto, que melhor se sentia. Sair era raro e fazia-o sempre com a família. “Estava sempre acompanhado por eles[ mulher e filho ]. É uma pessoa reservada, que gostava de tranquilidade. É impossível falarem mal dele, porqueémes mo uma boa pessoa”, assegura Rita Ribeiro, cuja confeitaria fica no lado oposto da rua do ex-apartamento do atleta. “Vinha aqui tomar o pequeno-almoço e lanchar. Raramente foi incomodado para tirar fotografias ou dar autógrafos”, desvenda.

Apesar de ter alimentado a fama com golos, Soares nunca foi de se esconder em público. “Normalmente sentava-se na mesa do meio. Às vezes era eu que o puxava mais aqui para o canto, para próximo da cozinha, para conversar com ele. É uma pessoa bem-disposta e que gosta de brincar”, confessa Van der, ou o “Brother do Migas ”, como também diz ser complicado vê-lo partir para o FC Porto, porque serei vitoriano até à morte. Vai ser triste vê-lo jogar com outra ‘camisa’, mas jogador é mesmo assim; tem de honrar a ‘camisa’”, sustenta o compatriota, quevivena Cidade-Berçohá20 anos e que descobriu que a cunhada é vizinha de familiares de Soares no Paraíba. A partida para a Invicta fez o portista cortar os laços que foi criando em Guimarães, mas todos esperam que um dia possa voltar. Se for para dar mais triunfos ao Vitória, tanto melhor.

Memória Do CSP para o Mundo

Foi o CSP, de Paraíba, que adquiriu o passe de Soares e transferiu para Portugal 50% do mesmo. Deco comprou o restante. Nesta fotografia, de 2012, Soares (assinalado com círculo) já era um dos principais jogadores

Fonte: Ojogo